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Amostra do livro 21 Dias Nos Confins do Mundo

Amostra do livro 21 Dias Nos Confins do Mundo

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Desenho: Membro da Sociedade Secreta da Terra do Fogo

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DEDICATÓRIA

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Dedico este livro a todos os seres que

um dia já habitaram a Terra do Fogo,

assim como aos seus espíritos, os quais

ainda vivem por lá e me permitiram

trilhar os seus Caminhos Sagrados.

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AGRADECIMENTO

…………a-postgradeço às Armadas da Argentina e do Chile, em especial aos seus Gendarmeiros e Carabineiros, os quais desde os tempos remotos realizam a nobre tarefa de guardar a vida e a segurança daqueles que se deslocam através de suas Terras Austrais.

……..Meu sincero e eterno agradecimento à senhora Cristina Calderón – quem me inspirou para a personagem Virgínia – por ter me recebido tão amavelmente em sua casa, assim como a Luis Gómes Zárraga, seu neto – quem me inspirou para o personagem Raul –, que de forma tão adorável e gentil me levou para conhecer as terras habitadas por seus ancestrais yámana na Ilha Navarino, bem como o cemitério existente em suas terras.

……..Agradeço também a todos que de alguma forma contribuíram no melhoramento da obra, bem como em sua publicação.

……..Por fim, meu agradecimento e admiração por Severiá Maria Idioriê Xavante, índia brasileira de etnia karajá e javaé, a qual me inspirou a compor a história pessoal de Halimink, um dos personagens da história. Severiá, sua história de vida é bela e espero que as dificuldades existentes jamais lhe façam desistir de continuar a luta pelo direito de exercitar a diferença de pensamento e expressão cultural do seu povo.

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ESPIRITUS tarjetas largas

Espíritos da Terra do Fogo – Membros da Sociedade Secreta do Hain

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APRESENTAÇÃO

…………Sempre foi meu desejo ajudar as pessoas a encontrarem um caminho melhor neste mundo, a explorarem melhor suas vidas e seus sentimentos. Mas para isso foi preciso vivenciar algumas provações e identificar em mim mesmo o que de fato tanto nos dói, o que nos motiva a viver e quais nossas principais fraquezas e virtudes.

…………Assim sendo, acreditei que nada melhor para vivenciar na pele o que eu tanto queria do que experimentar a travessia de um deserto, ou seja, algo similar ao que Cristo experimentou num dado momento de sua breve passagem por este mundo.

…………Seus apóstolos também vivenciaram essa experiência e devido a fé que possuíam naquilo em que acreditavam, foram capazes de concluir com êxito a missão de levar aos quatro cantos do mundo a verdade sobre a vida e a real essência humana.

…………Da mesma forma, muitos outros peregrinos e aventureiros também receberam algum tipo de “chamado” em algum dado momento de suas vidas e se lançaram em busca da verdade sobre a vida e sobre si mesmos, na tentativa de superar os limites do corpo, mas principalmente do espírito e da alma.

…………Contudo, eu só precisava de uma única coisa: ouvir a minha voz interior me dizer: Chegou sua hora! Venha, enfrente-me, e veja até onde você é capaz de chegar!

…………A possibilidade de vivenciar essa experiência sempre foi muito forte em mim, desde a minha infância, mas passou a me consumir em uma fração de conta-gotas ao longo dos últimos anos, tornando-se a cada dia que passava mais e mais sufocante.

…………Logo após eu ter completado 40 anos finalmente ouvi meu chamado e decidi então enfrentar a mim mesmo, esperando encontrar aquilo em que eu acreditei durante a minha vida inteira, e que estaria esperando por mim ao longo do caminho.

…………Nessa ocasião surgiu a primeira questão: qual seria o meu deserto? Será que eu teria de largar tudo e peregrinar em busca de algum lugar do outro lado do mundo? Será que eu deveria atravessar o imenso deserto do Saara ou qualquer outro lugar que pudesse servir de palco para minha tão sonhada imersão?

…………E de que forma seria tudo isso? Será que eu precisaria de muito dinheiro? Deveria sair por aí apenas na cara e na coragem e levar comigo somente o suficiente para me manter vivo?

…………A resposta para todas essas perguntas foi: não!

…………Primeiro porque eu não queria, e tampouco era meu objetivo, passar por nenhuma condição de sofrimento intenso, a não ser o desgaste emocional e psicológico que ocorreriam naturalmente conforme os dias se seguissem.

…………Segundo que, desde o princípio, eu havia criado uma resistência pela ideia de trilhar caminhos já tão desgastados pelo homem ao longo de sua história. Em resumo: eu queria um caminho novo, no qual eu pudesse ter certa segurança e que me possibilitasse experimentar aquilo que eu considerava ser o mais importante da experiência: provar a solidão absoluta e a minha capacidade de seguir em frente independentemente das situações que viessem a ocorrer naturalmente e, acima de tudo, pôr em prova a minha fé e realizar o meu encontro com Deus.

…………Todo deserto é uma região árida, coberta ou não por um manto de areia, em que é quase nula a presença de vida. Um deserto pode ser também uma ilha perdida ou um lugar pouco frequentado, solitário ou até mesmo abandonado. Diante dessas definições consegui ampliar minhas opções de escolha com relação ao lugar.

…………Após ler e pesquisar sobre diversos desertos existentes ao redor do mundo, optei pelo extremo sul da América, mais especificamente por cruzar a região da Terra do Fogo (Patagônia Argentina e Chilena) e finalizar a minha peregrinação próximo do lugar conhecido como o “Fim do Mundo”. Foi nessa inóspita e desértica região que decidi vivenciar a minha experiência e desafiar a mim mesmo, meditando e refletindo diariamente, a cada passo que eu pudesse dar.

…………Procurei refletir também sobre o meu papel como ser humano num mundo já tão debilitado e carente de sentido, tanto em relação à própria vida como em relação à nossa existência como um todo.

…………Com relação ao sentido teológico do tema “atravessar um deserto”, tentei entender, antes de partir, porque essa experiência nos fascina tanto e ao mesmo tempo nos assusta. Creio que nos fascina porque nos remete à ideia da busca pelo autoconhecimento, pelo poder e o autocontrole sobre si mesmo, e pela obtenção plena da fé que nos faz seguir em frente. Por outro lado, é uma experiência que também nos assusta terrivelmente, pois simboliza a luta pela sobrevivência, pelo mistério, a dor e a agonia, mas principalmente o medo da solidão.

…………De toda forma, fascinando ou assustando, sempre acreditei que em lugares inóspitos ou desertos a vida e a luz interior encontram meios para brotar no seu mais precioso sentido. Isso se deve, principalmente, pelas dificuldades e pelos perigos existentes ao longo do caminho, assim como pela necessidade de se seguir em frente, custe o que custar.

…………A possibilidade de receber a glória por vencer não somente um caminho, mas a si próprio, encontrando ou ultrapassando os próprios limites do corpo e do espírito, é algo extremamente motivador e enriquecedor.

…………É possível também que os desertos sejam campos preciosos para encontrarmos a cura interior e onde a grandiosidade humana se manifeste da forma mais espontânea e expressiva. E por que não crer que a vida (interiormente) brote de situações ou de lugares onde é quase nula a presença de vida (exteriormente)?

…………Diante disso, e encarando de forma positiva a experiência, me entreguei de corpo e alma ao que eu pretendia viver, e incentivo a todo aquele que ouvir o seu chamado a fazer o mesmo.

…………Ao longo do caminho aprendi quanto a vida se torna simples a partir do momento em que damos o primeiro passo em busca da verdadeira essência que a compõe. Da mesma forma, nos tornamos indivíduos mais pacientes e seguros quando passamos a perceber que podemos viver com muito menos do que imaginamos, diante do imenso fardo de coisas inúteis e sem sentido que carregamos ao longo dos nossos preciosos dias de vida. Tomarmos consciência dessas verdades nos faz viver de forma mais simples e generosa com tudo e com todos que nos cercam, e a enxergarmos a Deus tanto no brilho de uma estrela como no simples brilho contido no olhar de uma criança.

…………Posso afirmar que o deserto é um terreno grandioso para acharmos nossas respostas e formularmos novas perguntas a um nível mais elevado de consciência para que possamos prosseguir com o nosso desenvolvimento contínuo. Também é uma forma de encontrarmos a nós mesmos e nos prepararmos melhor para nossa breve passagem por este mundo e descobrirmos o nosso verdadeiro papel como seres pertencentes a um único e infinito universo.

…………Por fim, creio que enfrentar o próprio deserto não raras vezes se trata de um lugar distante e cheio de mistérios e segredos. Também enfrentamos pequenos desertos todos os dias, às vezes sem mesmo sair de nossas casas, tentando encontrar em meio ao turbilhão de nossas vidas as respostas para as perguntas que tanto nos sufocam.

…………Certamente que as perguntas não serão as mesmas para cada pessoa, pois cada um de nós tem suas próprias dúvidas e sabe exatamente aquilo de que precisa ou que deve buscar, por aqui ou por lá.

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Máscara utilizada nas Cerimônias Secretas do Hain

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INTRODUÇÃO

…………De acordo com a história, por volta do ano 1300 antes da Era Cristã ocorreu o primeiro milagre que eu considero como o “milagre do deserto”. Esse milagre foi magnífico, pois elevou a consciência de um povo com base nas experiências vividas num imenso vazio. A experiência a qual me refiro levou um grande número de pessoas a sair da condição de escravo no Egito e vagar por cerca de 40 anos entre imensos desertos de areia, buscando essencialmente um novo lugar para se estabelecer e recomeçar sua vida.

…………Embora não tenha sido absolutamente nada fácil, essa longa caminhada por meio do nada, em busca de um novo lugar e uma nova identidade, desencadeou um processo de amadurecimento naquele povo. Mas, acima de tudo, naquilo que se entendia por fé.

…………Foi um processo de aprendizagem em que pessoas muito diferentes umas das outras se viram obrigadas a conviver e a se organizar como um novo povo. Se algum de nós buscar mais informações sobre esse episódio na história, possivelmente chegará à conclusão de que foi a peregrinação de 40 anos no deserto que formou o Povo de Israel.

…………Posteriormente ocorreu também a famosa experiência vivida por Cristo, que recebeu um chamado e decidiu enfrentar por escolha própria, durante 40 dias, o Seu deserto, despindo-se totalmente de sua divindade e enfrentando tão humanamente todas as suas dúvidas, medos, desejos ou ilusões. Ou seja, tudo aquilo que ainda o impedia de seguir seu caminho na direção da luz.

…………Diante desse contexto, o deserto torna-se, acima de tudo, um lugar mítico, simbólico, e que inevitavelmente de uma forma ou de outra precisaremos atravessar um dia, quer decidamos buscar por ele ou ele decida nos encontrar em determinada fase de nossa vida.

…………Um deserto não é somente um lugar no espaço onde é difícil encontrar vida, mas também um lugar onde se deflagram nossas dores, crises, egoísmos etc. Um lugar onde aprendemos a todo custo que não temos o poder para tudo neste mundo, tampouco para dominarmos as forças naturais que regem a vida e o universo.

…………Para caminhar num deserto é preciso despir-se primeiramente do ego e entregar-se nas mãos de Deus, confiando e interagindo com ele a todo instante se quisermos ouvir as respostas para nossas dúvidas e encontrarmos os sinais que nos conduzirão em segurança ao longo do caminho. Sem Sua presença constante é praticamente impossível obtermos o tão precioso alimento espiritual para o corpo e a alma e vencermos a solidão, o medo e a dúvida.

…………E por que escolhi a Terra do Fogo (Patagônia) como o “meu” deserto?

…………Aos quatro anos de idade viajei com meus pais para o extremo sul da América, onde partimos de carro desde a cidade de Santiago do Chile, passando pelas cidades de Puerto Natales e Punta Arenas, cruzando o Estreito de Magalhães e seguindo em frente até a cidade conhecida como “O Fim do Mundo” (Ushuaia). Naquele tempo, por volta do ano de 1964, as estradas eram muito ruins, especialmente as que existiam próximas ao extremo sul do continente, onde o término da Cordilheira dos Andes dificultava por demais a travessia da região final da Terra do Fogo, pois ela cruza a Ilha Grande no sentido leste-oeste em direção ao final do continente, finalizando próximo ao Oceano Atlântico. As estradas hoje melhoraram muito, mas ainda são extremamente desertas, permitindo dirigirmos longos trechos sem a presença de nenhum outro carro em ambos os sentidos da rodovia.

…………Lembro que há certa altura do caminho tivemos de parar o carro para trocarmos um dos pneus que havia furado.

…………Nosso carro na época era um Chevrolet Opala quatro portas, cor azul-celeste, capota preta com uma enorme grade de ferro cromada na parte de cima, utilizada para carregar as malas e demais pertences, deixando o interior do veículo com mais espaço e conforto. Mais tarde, conversando e relembrando com meus pais sobre a nossa aventura, soube que a viagem foi em comemoração ao seu terceiro ano de casamento.

…………Estávamos por volta do mês de novembro e o inverno havia se prolongado muito naquele ano, fazendo com que o alto das montanhas ainda estivesse, em boa parte, coberto pelo gelo. Meu pai tinha recém-adquirido o carro e era seu sonho fazer a travessia do Paso Garibaldi, famoso por ser a única passagem existente nos Andes Fueguinos na porção austral e final da Cordilheira dos Andes, a qual se teve êxito de cruzar.

…………Embora uma nova rodovia tenha sido construída (concluída por volta de 1970), destinada principalmente ao escoamento da produção industrial da zona franca existente na região do Ushuaia, ainda hoje permanece a antiga estrada de terra, serpenteando vários pontos da rodovia nova que veio a ser chamada de “Camino Nuevo”.

…………No ponto mais alto de ambas as estradas (a antiga de terra e a nova de asfalto), mais especificamente onde as duas se encontram e se transformam em uma só, existe um marco memorial simples chamado “Paso Garibaldi” homenageando a primeira passagem de um automóvel particular a cruzar as montanhas, marcando assim a abertura do caminho em novembro de 1956. Uma camionete Buick da década de 1920 de propriedade de um senhor chamado Julio Canga foi o primeiro veículo particular a realizar a travessia, feito que marcou definitivamente a ligação entre as cidade de Rio Grande e Ushuaia.

…………Dois dias depois da abertura da estrada (ainda de terra) um turista norte-americano vindo do Alasca repetiu a proeza, fazendo a passagem com seu Jeep anfíbio e passando a ser o primeiro turista a realizar a travessia do final da Cordilheira dos Andes de carro.

…………Vale mencionar que o nome dado ao “Paso Garibaldi” não faz referência ao italiano Giuseppe Garibaldi, mas sim a Raul Garibaldi Honte, filho de uma nativa da tribo haush chamada Luisa Honte com o italiano José Stroppa. Raul era funcionário de uma subprefeitura local e também conhecido pelo apelido de “Paka”, seu nome nativo.

…………Foi ele quem, a partir do Lago Escondido (próximo à cidade do Ushuaia), prospectou intensamente uma via de passagem natural sobre a cordilheira e que por volta do ano de 1936 viria a ser a primeira rua utilizada como ligação entre o restante do continente e o “Fim do Mundo”. De acordo com a história, encontrei referência de que foi sua mãe quem lhe contou sobre a existência de um caminho antigo usado há muitos anos pelos índios selk’nam e manekenk para cruzar as montanhas. Esse caminho lhe serviu de guia para a prospecção da estrada.

…………Vale dizer que o Garibaldi ainda permanece até os dias de hoje como único ponto de ligação terrestre entre o restante do continente e a cidade de Ushuaia.

…………Voltando à parada que realizamos na viagem, lembro que meu pai ficou com o trabalho pesado, enquanto minha mãe permaneceu apenas ao seu lado contando coisas engraçadas e também cantando para distraí-lo. Minha mãe tinha uma voz linda e gostávamos de ouvi-la cantar.

…………Enquanto isso, senti-me à vontade para sair do carro e olhar os arbustos e o terreno plano e longínquo que se estendia na direção de uma gloriosa cadeia de montanhas que ficava bem ao fundo no horizonte. Os arbustos não eram tão escassos e possuíam uma cor dourada, levemente amarronzada, típica do ressecamento sofrido pelo inverno recém-ocorrido. Era a belíssima estepe patagônica.

…………Ao final no horizonte havia uma perfeita fusão entre as cores do terreno e as cores das montanhas, formando uma única e espessa faixa amarronzada. Apesar do ar gelado, o céu estava de um azul intenso e a cadeia de montanhas parecia possuir uma infinidade de tons de marrom. Suas torres cintilavam com o brilho do Sol e cada uma possuía forma e tamanhos diferentes.

…………Depois de alguns instantes olhando na direção do horizonte, percebi que um dos arbustos próximos ao carro se mexia de forma diferente, insinuando a presença de algum animal. Para minha surpresa era um coelho gordo e cinzento, que ao sair de trás do arbusto parou e olhou fixamente na minha direção.

…………Como eu ainda era muito pequeno, não possuía a razão necessária para medir com segurança os riscos de se perder num lugar tão distante e deserto e, num gesto impulsivo e peculiar de uma criança, lancei-me no terreno em busca do pequeno animal.

…………Não demorou muito para eu perceber que havia me distanciado demasiadamente do local onde estava, dando a nítida sensação de estar perdido em meio a uma infinidade de arbustos que mais pareciam ser todos iguais. Entrei em desespero e me pus a chorar, agachado e com os olhos cerrados pelas mãos, cobrindo o meu rosto. Foi quando eu senti um toque suave de alguma coisa sobre uma de minhas mãos.

…………Para minha surpresa e espanto, ao abrir os olhos vi que se tratava de um homenzinho com características muito engraçadas. Assim que me olhou nos olhos ele sorriu e emitiu um som parecido com um grunhido, porém suave e acolhedor. Permaneci imóvel e aos poucos percebi a chegada de outros homenzinhos que foram saindo de trás dos demais arbustos que havia ao meu redor. Todos juntos fizeram um círculo ao redor de mim e me olhavam com olhar de acolhimento e ternura que até hoje me faz sonhar com frequência com aquele momento mágico.

…………Após alguns instantes, aquele que parecia ser o mais velho dentre eles me tomou pela mão e me guiou com toda a delicadeza até bem próximo do local onde eu havia saído de modo com que pudesse avistar de perto o carro e também meus pais.

…………Notei que devia ter se passado apenas alguns minutos, pois meu pai ainda estava abaixado trocando o pneu e minha mãe permanecia ao seu lado sorrindo e cantando. Quando os vi soltei um enorme suspiro de alívio e senti uma alegria intensa. Ainda de mãos dadas, olhei para o homenzinho ao meu lado que sorrindo soltou minha mão e em seguida me abraçou, como num gesto de despedida. Já de pé, percebi que ele não tinha mais do que a minha altura, ou seja, com a minha idade na época, cerca de no máximo 1,20 metro de altura.

…………Corri na direção do carro e assim que alcancei meus pais olhei para trás e o homenzinho permanecia lá, em pé, me olhando em meio aos arbustos como que se estivesse ainda cuidando para que eu alcançasse com segurança o local de onde eu havia saído em busca do coelho.

…………Imediatamente gritei:

…………– Mamãe, mamãe, eu me perdi!

Minha mãe fez cara de espanto sem entender o que havia acontecido. Ela brincou comigo dizendo:

…………– Sério, meu filho? E como você encontrou o caminho de volta?

…………– Foi um homenzinho que me trouxe, ele está lá, olhe! – E apontei na direção do arbusto onde o pequenino se encontrava.

…………Curiosamente minha mãe não o via, mas eu o enxergava perfeitamente, a ponto de insistir incisivamente com ela para que o procurasse melhor com os olhos. Não sei por qual motivo minha mãe não conseguia vê-lo. Tenho a certeza de que aquele ser era real e estava ali, bem perto de nós, mas infelizmente apenas eu conseguia enxergá-lo.

…………– Pronto! – disse mamãe. – Venha, seu pai terminou com o pneu e nós já podemos seguir com a viagem.

…………Eu insisti:

…………– Mas e o homenzinho? Precisamos levá-lo para casa, mamãe. Está muito frio aqui fora e não podemos deixá-lo aqui.

…………– Você deve ter se assustado, querido, isso é muito comum quando ficamos preocupados com alguma coisa. Venha com a mamãe um pouco no banco da frente. Vamos embora, está ficando muito frio aqui fora.

…………Entramos todos no carro e meu pai deu a partida no motor. Ao sairmos do acostamento e ingressarmos na rodovia pulei imediatamente para o banco de trás, em meio a solavancos e pisoteando minha mãe de tudo quanto era jeito. Ao olhar na direção onde estávamos há pouco, vi muitos homenzinhos saindo dos arbustos e tomando o acostamento da estrada no local onde o carro havia parado para a troca do pneu. O pequenino que havia me ajudado levantou sua mão direita, acenando em despedida, enquanto os demais permaneciam ao seu redor, emitindo apenas olhares de calor e ternura.

…………Naquele instante, mesmo sem entender, tive minha primeira experiência espiritual com os seres mágicos existentes na Terra do Fogo e com o caminho que anos mais tarde eu viria a chamar de “Caminho Sagrado”. Muitos anos se passaram desde então, e o episódio daquele dia foi pouco a pouco sendo trancafiado no baú do meu esquecimento.

…………Contudo, mesmo inconscientemente, tinha com frequência sonhos estranhos com seres mágicos, mesmo depois de adulto, e quando acordava tinha a sensação de que de alguma forma eu voltaria algum dia naquele lugar e encontraria as respostas para todas as dúvidas que restaram escondidas em minha memória.

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Máscaras usadas pelos Membros da Sociedade Secreta do Hain

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PRÓLOGO

…………Há muitos séculos, por volta do ano de 1500, um grupo de exploradores do Velho Mundo avistou uma terra extremamente árida, rochosa e completamente desconhecida, cercada por uma infinidade de ilhas de todos os tipos e tamanhos.

…………Também havia nessas terras imensas colunas de fumaça, tão altas que davam a impressão de que tocavam o céu. Eram na verdade as enormes fogueiras feitas pelos nativos daquela terra tão inóspita, que pareciam pairar sobre as águas geladas dos canais que circundavam por todos os lados as pequenas massas de terra e rocha. Foi exatamente este místico e curioso cenário que fez os que ali aportassem pela primeira vez dessem ao lugar o nome de “Terra do Fogo”. Embora o lugar ainda hoje seja um tanto remoto, passou a atrair grande número de pessoas de todas as partes do mundo, sedentas por aventuras, histórias e lendas.

…………Após ler um pouco sobre a região e saber que ela também ficou conhecida pelo apelido de “O Fim do Mundo”, pensei comigo: se é lá que o mundo acaba, deve ser lá que o mundo também começa, pois todo fim é também um começo.

…………Mas algo maior me fascinou a ponto de ter elegido o “Fim do Mundo” como meu deserto: os homens que por lá estiveram e os habitantes nativos de suas terras, assim como as experiências vividas por eles em meio a um ambiente tão inóspito e solitário.

…………Alberto de Agostini, de origem polonesa, explorador, fotógrafo e presbítero salesiano, que se tornou conhecido por seu trabalho missionário e de exploração na Terra do Fogo, escreveu sobre o local por volta de 1875:

…………“Na extremidade daquela extensa ponta de terra da América do Sul, que vai se estreitando à medida que se aproxima do Polo, banhada por dois oceanos, o Atlântico e o Pacífico, o continente parece ter-se esmiuçado em um vasto arquipélago que, separado da terra firme pelo Estreito de Magalhães, penetra nas frias e misteriosas solidões do Antártico, sob o sugestivo nome de Terra do Fogo”.

…………Ao retornar à Inglaterra após três longos anos vividos aos arredores do extremo sul, Darwin escreveu as lembranças do que lhe restou de sua passagem pelo Fim do Mundo:

…………Penso que eu não deva ser o único a quem isto lhe acontece, porque estes áridos desertos têm enraizado tão profundamente na minha memória?”

…………Por volta desse mesmo período, Julius Popper, engenheiro judeu-romeno naturalizado argentino, deixou em seus escritos o que encontrou por aquele imenso deserto:

…………Não só vi anões e gigantes, bosques subterrâneos, selvas antárticas, grutas submarinas e colossos de granito, mas também vi as portas incólumes do paraíso.”

…………Além desses, muitos outros se aventuraram por esse imenso deserto tão inóspito e ao mesmo tempo tão misterioso e fascinante: Thomas Bridges, George Despard, Allen Gardner, Robert Fitzroy e muitos outros. Em sua maioria, exploradores e missionários que optaram, por livre e espontânea vontade, ir ao encontro de seus desertos.

…………Com relação ao Fim do Mundo, vale também dizer que este se chama assim por se tratar do pedaço de terra mais austral do planeta, e também por ser o último lugar habitado antes de se chegar a Antártida, razão pela qual grandes exploradores, aventureiros e desbravadores decidiram se estabelecer de forma fixa ou temporariamente por ali. Logo após a chegada dos primeiros exploradores e missionários, algumas potências europeias da época estavam literalmente obcecadas por atingir o Polo Sul, fazendo com que se criasse uma espécie de “corrida do ouro” ao extremo sul do planeta no início do século 20.

…………As intenções, obviamente, eram das mais variadas possíveis. Desde o mapeamento de terras e ilhas pouco conhecidas até a busca pela descoberta de novas terras em um novo e imenso continente, assim como suas riquezas e o direito de possuí-las.

…………Devo dizer que os condutores dessas expedições deram uma grande contribuição para a minha escolha pelo deserto do “Fim do Mundo”. Ao ler sobre essas expedições, busquei conhecer melhor a alma desses grandes homens, que enfrentaram o frio, a fome, a solidão, a glória, assim como também a morte.

…………Pelo que pude encontrar através da história, a maioria desses homens, embora cumprisse com afinco as tarefas distintas e suas obrigatoriedades para com seus financiadores, buscava também interesses próprios. E são exatamente esses interesses próprios que tentei decifrar por intermédio dos seus sonhos, pois eram justamente nesses interesses próprios que residiam seus corações.

…………O que falar do capitão Fitz Roy que veio parar no extremo sul quase que por um acaso? Por medo da solidão e do longo e árido deserto que iria enfrentar, exigiu que a Coroa Britânica permitisse trazer a bordo um jovem naturalista chamado Charles Darwin, a fim de que este lhe fizesse companhia durante o longo e difícil período de trabalho árduo, tendo com quem conversar. Por sua vez, Darwin também enfrentou um imenso deserto antes de concluir sua teoria da evolução das espécies.

…………Na história não muito distante, o capitão A.P. Moller, fundador de uma das maiores empresas de navegação do mundo na atualidade, no início de sua carreira possuía apenas um pequeno navio e frequentemente levava consigo sua esposa em suas viagens, a fim de escapar dos longos períodos de solidão e não permanecer tanto tempo longe dela. Durante uma de suas viagens, sua esposa esteve gravemente enferma, a ponto de quase perdê-la.

…………Em meio a um imenso oceano, e diante de uma forte tempestade, viu-se fraco e impotente diante de qualquer tentativa de salvá-la. Num momento de extrema angústia ele a colocou na cama e saiu ao convés, inundado pela água e pela forte chuva, gritando com Deus para que Este lhe desse um único sinal para que continuasse firme e não caísse derrotado pela angústia e desespero. A história narra que em seguida às suas preces um vento suave tocou sua face e em poucos minutos uma brisa seca pairou sobre o navio. Aos poucos as nuvens começaram a diluir-se, e foi quando ele olhou para o céu e viu brilhar, solitária, uma imensa estrela por entre as nuvens, um sinal de que sua prece havia sido ouvida. Dali em diante houve tempo favorável e não tardou alcançarem um porto seguro.

…………Sua esposa pôde ser atendida e sobreviveu, e tão logo atracou pediu que fosse pintado uma grande estrela branca dentro de uma flâmula azul-celeste na chaminé de seu navio, como forma de lembrar os momentos de angústia vencidos em meio ao deserto, assim como em agradecimento a Deus por ouvir suas preces. Sua empresa prosperou ao longo dos anos, tornando-se um verdadeiro império, e até hoje a estrela pode ser vista a distância em todos os navios da sua frota.

…………Voltando ao “Fim do Mundo”, são tantos e tantos casos que envolvem fé, persistência e determinação ao longo de tantos e tantos desertos enfrentados e vencidos, que prefiro deixá-los para outra oportunidade, e conforme eu for trilhando meu caminho, percorrendo algumas das trilhas enfrentadas por alguns desses grandes homens, tentarei expressar apenas meus sentimentos.

…………Por fim, fazendo também uma breve analogia às últimas descobertas científicas com relação ao poder que emana do nada, a famosa antimatéria, acredito que seja exatamente nos lugares mais inóspitos, mais solitários e longínquos que a luz que existe dentro de cada um se manifeste da forma mais intensa e produtiva.

…………E é justamente em meio às provações e novas descobertas que vamos nos graduando como seres humanos e divinos e passamos a descobrir o nosso principal papel no mundo e na vida das pessoas.

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Desenho de uma Típica Canoa Fueguina

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CAPÍTULO I

Os Preparativos para a Viagem

 …………Já havia passado da meia-noite naquela sexta-feira do dia 3 de novembro. Chovia forte e ventava muito, o que me preocupava, pois na manhã seguinte bem cedo sairia meu voo de Santa Catarina em direção ao extremo sul da América.

…………Há poucos instantes eu havia acabado de checar todos os meus pertences, documentos e passagens, e tudo parecia estar pronto. Só me restava verificar os e-mails e a confirmação do encontro com Juan, meu amigo e parceiro de viagem. Antes disso, resolvi tomar um banho morno para relaxar, esperando que a minha ansiedade diminuísse.

…………Após o banho juntei todas as minhas coisas e as coloquei em cima do sofá vermelho que tenho no canto direito da minha sala, que por sinal é o ponto mais próximo da porta. Por um instante olhei para minha bagagem e soltei um grande suspiro:

…………– Pronto!

…………Em seguida tomei o computador em minhas mãos e acessei meus e-mails. Para minha infeliz surpresa, recebi um e-mail de última hora de Juan cancelando sua ida por motivos de saúde, e nesse exato instante pensei que eu fosse desistir também. Desde o início do ano eu havia tentado obter algum parceiro disposto a encarar uma viagem de aventura no Fim do Mundo, mas praticamente todos haviam desistido, exceto Juan, que, por incrível que pareça, eu achava que seria o primeiro a desistir.

…………Juan tinha entre 55 e 60 anos de idade, era engenheiro de origem húngara e morava em Buenos Aires desde que havia se formado em engenharia na Inglaterra. Era divorciado e possuía apenas uma filha. Descendia de uma família nobre provida por gerações de aventureiros que abriram mão de suas vidas convencionais para se embrenharem nas distantes e pouco conhecidas terras que pertenciam ao extremo sul da América. Obtive seu contato por meio de um conhecido aficionado por aventuras e histórias relativas às culturas indígenas sul-americanas. Vim a descobrir posteriormente que esse meu conhecido também não o conhecia a fundo, mas me garantiu de todas as formas possíveis e impossíveis de que se tratava de uma pessoa confiável, culta e portadora de um grande espírito.

…………Desde que fiz meu primeiro contato com ele fui construindo em minha mente, pelos e-mails que trocamos, a figura de uma pessoa experiente e sensata, educada e ao mesmo tempo divertida, o que seria perfeito para ocasião. Conforme aumentava nossa amizade, Juan demonstrava cada vez mais ser um parceiro ideal para essa aventura, pois era conhecedor da região e da história dos povos que habitaram a Terra do Fogo até tempos não muito distantes do nosso.

…………De acordo com sua história, seu avô materno havia sido um explorador, que durante décadas percorreu a Terra do Fogo em busca de aventuras e dos misteriosos segredos da história do povo que habitava a região mais austral do planeta. Muitas de suas viagens teriam sido feitas de forma solitária, a pé ou a cavalo. Em algumas ocasiões, ele teria sido acompanhado por amigos que ele havia feito ao longo das aventuras, a maioria deles nativos dos povos fueguinos, que após anos de convivência e considerá-lo como amigo fiel e verdadeiro, passaram a vê-lo como parte do próprio povo.

…………Como já havia passado muito tempo do falecimento de seu avô, Juan acabou colocando de lado as histórias e as tantas lembranças, não podendo mais recorrer à memória viva que este tinha com relação aos locais que havia passado e as pessoas com quem conviveu durante suas viagens. Contudo, seu avô havia lhe deixado um presente: uma pequena caixa de madeira rústica ornamentada com pedras coloridas, recheada de mapas, fotos e documentos importantes que foram colecionados ao longo de seus anos de aventura e peregrinação pela Terra do Fogo. Com esses documentos havia um mapa desenhado de próprio punho e algumas inscrições, sugerindo a existência de uma trilha oculta cujo início seria próximo da região dos lagos, pertencente à Patagônia Argentina.

…………A primeira parte dessa trilha cruzava diversos vales e cadeias de montanhas em direção ao sul da América, adentrava o território chileno cruzando a região de Torres de Paine e seguia em direção à pequena cidade de Puerto Natales, passando por um lugar onde havia uma enorme caverna. Adiante cruzava novamente montanhas, contornando lagos, glaciares e seguindo em direção à cidade Punta Arenas. Dali o mapa sugeria percorrer o Estreito de Magalhães por terra em direção à vila de Puerto Hambre, na região do antigo Fort Bulnes.

…………Nesse ponto a marcação da trilha sinalizava seu fim na costa do estreito, reaparecendo na margem oposta, perto da região onde fica a cidade chilena conhecida por Porvenir – capital da Terra do Fogo Chilena.

…………Dali em diante algumas demarcações estranhas no mapa indicavam duas novas rotas distintas, que se separavam e voltavam a se encontrar próximas ao Lago Kami, hoje conhecido por Lago Fagnano, o qual possui cerca de 100 quilômetros de extensão e que pertence tanto à Argentina quanto ao Chile.

…………Uma das rotas parecia ser mais plana, já a outra parecia indicar algumas cadeias de montanhas que deveriam ser transpostas. De acordo com os rascunhos feitos no mapa se tratava da parte final da Cordilheira dos Andes, que em determinado ponto cruza de leste a oeste o continente sul-americano, submergindo no Oceano Atlântico, próximo da Ilha dos Estados, e ressurgindo tão somente próximo da Antártida.

…………Uma pequena seta no mapa sugeria ao aventureiro que essa rota que cruzava o final da Cordilheira dos Andes seria a melhor opção, e foi justamente por essa que havíamos decidido seguir.

…………Finalmente, o misterioso caminho aberto e trilhado inúmeras vezes pelo avô de Juan que agora estava ali, diante de nós e esperando para ser redescoberto, passaria ainda pela cidade de Ushuaia, mas seria dado por vencido somente após a travessia do Canal Beagle, onde deveríamos ingressar em terras chilenas que ficam do outro lado do canal, na Ilha Navarino, passando por Puerto Williams e finalizando o longo percurso no pequeno povoado de Puerto Toro, o povoado mais austral do mundo.

…………Desde que soube da existência dessa história, dos mapas e dos registros que pertenceram ao avô de Juan, fiquei fascinado pela ideia de encontrarmos o início dessa trilha e segui-la, pois me parecia que ela estava inserida num mundo distante, muito fora da realidade comum.

…………Durante muitas e muitas noites ao longo dos meses que se sucederam desde que conheci Juan e sua história, e após ter lido e pesquisado sobre a Terra do Fogo e os povos que nela habitaram, percorri em meus sonhos e pensamentos esse caminho tentando montar um cenário que pudesse servir como base para a história que estou escrevendo aqui hoje. Mas nada se compara ao que eu vivi, senti e vi com meus próprios olhos, pois a magia contida no caminho é impossível de ser expressa em palavras.

…………Contudo, o e-mail de Juan naquela última noite antes da viagem me pareceu um ponto-final em tudo que eu havia sonhado.

…………O e-mail que Juan havia escrito não parecia se tratar apenas de um comunicado, mas acima de tudo continha nas palavras um apelo para que eu não desistisse da ideia de seguir adiante, pois esse primeiro desafio poderia ser apenas um pequeno teste para tudo que ainda estava por vir, segundo ele. Em suas últimas palavras Juan dizia: “quem sabe este fato [sua desistência] não seria uma obra do acaso, mas sim algo em que eu deveria encarar como um pequeno obstáculo, se eu realmente quisesse chegar onde quase nenhum homem havia chegado”.

…………De certa forma essas palavras me soavam pertinentes ao que eu vinha buscando nos últimos anos, ao chamado que meu coração persistia em ouvir. Ou seja, o chamado de que eu deveria encontrar o meu deserto e cruzá-lo sozinho. Contudo, confesso que me senti completamente atemorizado, pois acima de tudo fui pego de surpresa naquele momento.

…………Anexo ao seu e-mail estava o mapa de seu avô, dicas e, por último, um pequeno bilhete escrito de próprio punho por Juan, em uma língua desconhecida, o qual eu deveria imprimir e entregar ao seu melhor amigo de infância, que se chamava Halimink, quem estaria me esperando no aeroporto da cidade de El Calafate – Região dos Lagos Argentinos, e me auxiliaria ao longo do caminho.

…………Fazendo um balanço e tentando digerir o e-mail de Juan, o fato de que eu deveria encontrar com um completo desconhecido me deixou ainda mais apreensivo. Pensei em desistir, mesmo perdendo todo o dinheiro que eu havia investido em passagens, roupas e acessórios.

…………Resolvi responder ao e-mail e acusar Juan por arruinar meus planos e também por ter me feito de idiota. No fundo eu deveria ser mesmo um idiota, pois havia confiado um projeto desse porte a uma pessoa completamente desconhecida e que se baseava apenas em histórias contadas por um velho que nem mesmo fazia mais parte deste mundo. E o mapa? Quem poderia realmente garantir que aquele mapa era real? Poderia muito bem ser fruto da imaginação de um velho moribundo que outrora acreditava ser digno de comparar-se a Indiana Jones.

…………Escrevi um e-mail a Juan com todas as minhas queixas, porém antes de terminá-lo eu já havia me arrependido de tê-lo escrito, e decidi então não enviá-lo imediatamente. Antes decidi orar por alguns minutos. Pedi em minhas orações que Deus iluminasse meus pensamentos e roguei por algum sinal, qualquer sinal, por menor que fosse e que pudesse me dar a resposta se eu deveria ou não seguir adiante com a viagem em busca do caminho perdido da Terra do Fogo.

…………Após quase uma hora de oração e reflexão e já quase adentrando a segunda hora da manhã, nenhuma resposta, nenhum sinal, nada… Apenas angústia. Levantei-me e caminhei até a janela do meu quarto e a abri para tomar um ar puro. Foi nesse momento que uma brisa leve tocou minha face, umedecendo-a suavemente. O tempo permanecia fechado, apesar de a chuva ter praticamente ido embora. Quando voltei meu rosto para o céu avistei uma pequena estrela em meio a todas aquelas nuvens turbulentas que passavam de forma tão rápida, agitadas sob ela.

…………Uma única estrela, pequenina, no meio daquele imenso mar de nuvens que parecia ser um infinito, insistia em permanecer ali brilhando para mim. Eis o sinal que eu havia pedido a Deus. O sinal que uma vez na história já havia sido dado.

…………Voltei ao computador e imediatamente apaguei toda a carta que eu havia escrito a Juan, destratando-o e acusando-o de ter arruinado o meu sonho. Quisera que todas as vezes tomássemos essa atitude, evitando assim consequências indesejáveis.

…………No lugar da enorme carta escrevi uma pequena mensagem como resposta, que sucintamente dizia o seguinte:

…………“Caro amigo, sei que não medistes esforços para que pudéssemos estar juntos amanhã a fim de iniciarmos essa grande aventura. Quisera Deus que pudéssemos de fato estar juntos e encontrar o caminho perdido traçado pelo seu avô e dado a você através dos mapas e dos registros que me enviastes. Muito obrigado por confiar a mim todas essas informações que guardastes com zelo ao longo de tantos anos. Sei que de alguma forma estaremos juntos nessa viagem. Espero encontrá-lo em breve em Buenos Aires e compartilhar contigo tudo o que eu puder receber da Terra do Fogo e das pessoas pelas quais eu cruzar ao longo dessa jornada. Quanto ao caminho, não se preocupe, irei encontrá-lo.”

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Desenho do Navio Beagle pelo Artista Conrad Martens

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CAPÍTULO II

A chegada em El Calafate e o Encontro  com Halimink 

O Início do Caminho

…………Depois de ter escrito a resposta a Juan tratei de me deitar e descansar para o dia seguinte, mas sabia que não seria fácil dormir. Mesmo assim, tentei acalmar minha mente. Passaram-se apenas alguns instantes e sem que eu percebesse o despertador tocou e tive de me levantar rapidamente. Coloquei minha roupa e fiz um rápido lanche.

…………Tudo naquela manhã transcorreu bem. Os voos não atrasaram, porém havia escalas e não foi possível fazer o trajeto diretamente. Tive de ir primeiro até Buenos Aires e trocar tanto de aeroporto quanto de avião, fazendo com que eu perdesse praticamente um dia inteiro em função de uma viagem que duraria bem menos se fosse um voo direto. Estando em Buenos Aires, já no aeroporto seguinte, tive de aguardar aproximadamente quatro horas até que meu voo partisse até a cidade de El Calafate, onde eu deveria encontrar o amigo de infância de Juan.

…………El Calafate é uma pequena cidade localizada na província de Santa Cruz, bem próxima da fronteira com o Chile. Apesar de possuir uma população fixa de aproximadamente 8.500 habitantes, em alguns períodos do ano esse volume aumenta consideravelmente porque a cidade oferece uma boa estrutura hoteleira, aeroporto moderno e muitas opções de turismo, especialmente para os que gostam de aventura. Suas estradas são muito bem conservadas e sinalizadas, porém de pouco movimento. A região possui clima frio, com média anual entre cinco e sete graus centígrados. O nome El Calafate vem de um arbusto que nasce na região e produz uma pequena fruta da qual são feitos doces e geleias, além de licores, que encontramos à venda em quase todas as lojas de alimentos da região.

…………É também a cidade mais próxima do Parque Nacional dos Glaciares, região dos Lagos Argentinos, onde se encontra a maior geleira em extensão horizontal do mundo: o Glaciar Perito Moreno. É uma geleira que apresenta crescimento constante apesar do aquecimento global, sendo uma das únicas geleiras no mundo com essa característica, o que intriga cientistas e estudiosos no mundo inteiro.

…………A região possui ainda outra importante geleira: o Glaciar Upsalla, cujo acesso se dá próximo da entrada da pequena vila de El Chalten, considerada a capital argentina dos trekkings. A vila foi considerada Patrimônio Mundial da Humanidade por suas maravilhosas formações geológicas, fauna e flora, que não se encontram em nenhum outro lugar no mundo, e é localizada aos pés da famosa montanha Fitz Roy, apontada como uma das mais difíceis no mundo de se chegar ao topo devido ao grau de dificuldade e às condições climáticas.

…………Os glaciares existentes na região dos Lagos Argentinos são como imponentes guardiões da neve, que foi sendo depositada aos poucos por milhares e milhares de anos, desde o alto da Cordilheira dos Andes, e que desce por caminhos que chegam quase a atingir 180 quilômetros de distância. A formação de um glaciar é basicamente de neve compactada e a sua formatação gradual possibilita um espetáculo à parte: o surgimento de centenas de tons que vão desde o azul mais escuro até o branco. Todos praticamente finalizam seu percurso no Lago Argentino, se fragmentando de diversas formas, desde pequenos pedaços, farelos de gelo e até mesmo grandes icebergs, que descem lentamente o leito do lago e algumas vezes encalham próximos das bordas e ali permanecem até que derretam. Durante o percurso de descida, os glaciares se movem mais de um metro por dia, e esse movimento causa atrito com o terreno, lançando no lago uma enorme quantidade de sedimentos finíssimos que ficam boiando na água, formando uma espécie de via láctea aquática que alguns chamam de “o leite dos glaciares”. É um espetáculo maravilhoso que todos deveriam ter a oportunidade de conhecer.

…………Ao desembarcar em El Calafate tratei logo de não perder tempo e me dirigi rapidamente à esteira de bagagem para pegar minha mochila e o meu equipamento para caminhada. Para meu espanto não havia ninguém me esperando na porta de saída. Caminhei em direção ao estacionamento aberto e olhei ao redor para ver se via algum sinal de Halimink, e nada. Após alguns instantes olhei na direção da estrada que dava acesso ao aeroporto e vi que se aproximava uma figura distinta, carregando uma mochila rústica nas costas e um cajado de madeira na mão direita, como aqueles que servem de apoio em longas caminhadas. Ao se aproximar percebi que se tratava de um mestiço de baixa estatura, ombros largos e porte robusto. Fiquei parado observando-o e deixei que ele se aproximasse. Quando chegou a poucos passos de mim, possibilitando o contato verbal, ele parou e me olhou nos olhos, e de forma calma e suave disse meu nome, e eu respondi da mesma forma, com o seu.

…………Halimink justificou seu atraso alegando que era seu costume aguardar debaixo de uma árvore onde costumava sentar e apreciar a paisagem desértica que existe aos arredores do aeroporto de El Calafate, até o momento em que ele avistasse o “grande pássaro metálico” tocando o solo.

…………Logo que nos apresentamos tive muita curiosidade por ele, pois parecia um daqueles nativos que carrega consigo o mesmo encanto que a sua terra. Embora eu já estivesse horas em viagem, não me sentia cansado, talvez pela curiosidade por tudo o que estava por vir. Perguntei a ele onde eu poderia comprar alguns alimentos antes de partirmos, e sem me responder de forma direta, gesticulou com uma das mãos, balançando-a na direção que deveríamos seguir.

…………– Temos um longo caminho pela frente, não se preocupe com as providências – disse ele.

…………Ao iniciarmos a caminhada pela estrada que dava acesso ao aeroporto, tentei estreitar nossa amizade demonstrando interesse pela sua vida, o que fez com que eu lhe fizesse uma série de perguntas, e ele educadamente respondeu a todas com paciência e boa vontade, embora quase sempre sem dar muitos detalhes.

…………Halimink nasceu no coração da Terra do Fogo, na Ilha Grande, próximo do Lago Kami, conhecido hoje por Lago Fagnano. Depois de se tornar adulto, sua família migrou para Terra dos Alakalufes, hoje um parque nacional pertencente ao Chile, próximo da cidade de Puerto Natales. Os alakalufes formavam um grande grupo de índios da zona austral chilena, sendo nômades por natureza e especialistas na arte da canoagem. Percorriam praticamente todos os canais da Patagônia Ocidental, o Estreito de Magalhães em toda a sua extensão, desde o Pacífico até o Atlântico, além dos demais canais existentes a oeste da Ilha Grande da Terra do Fogo.

…………Era considerado um povo com grande sabedoria, e que possuía um idioma bem definido conhecido pelo nome de kawésgar, palavra que também utilizavam para se autodenominarem e cujo significado remetia a ideia de “pessoa” ou “ser humano”. Estima-se que o povo alakalufe, antes da chegada do homem branco, era composto por aproximadamente 3.000 indivíduos. Porém, desde o primeiro contato que tiveram, principalmente com europeus, começaram a adquirir uma série de enfermidades que os levou ao declínio quase absoluto.

…………Outro fato curioso e relevante que ocorreu a partir de 1870 em cidades europeias e norte-americanas foi a exibição de indígenas sul-americanos vivos, um costume que somente cessou no início do século 20. Famílias inteiras de diversas etnias eram exibidas na França, Inglaterra, Bélgica e Alemanha. Chegavam até a Europa por conta de comunidades científicas ou comerciantes que lucravam com suas exibições ao público. Eram excursões longas que duravam meses, o que os levava a contrair enfermidades e posteriormente a morte, sendo raros os casos em que retornavam vivos para as suas terras de origem.

…………Logo que saímos da estrada principal do aeroporto e adentramos a rodovia principal que nos levaria ao início do caminho que deveríamos seguir em direção ao extremo sul, foi necessário pararmos em um posto de polícia conhecida como Gendarmeria.

…………No guichê do posto, havia dois soldados do lado de dentro, além de outros dois do lado de fora, os quais paravam e verificavam os automóveis. Um dos soldados me pediu os documentos e questionou minha procedência e destino. Halimink interveio e disse que eu estava com ele e nada mais me foi perguntado. Meu passaporte foi devolvido e percebi que um dos soldados fez uma saudação sutil a Halimink com a mão esquerda, cruzando de forma peculiar dois dos dedos enquanto os outros três permaneciam retos. Ele devolveu a saudação abaixando sua cabeça, como forma de consentimento e agradecimento. Percebi nesses movimentos que havia uma cumplicidade entre os dois. Ao partirmos perguntei a Halimink o que seria de fato uma Gendarmeria, e ele limitou-se apenas a responder que se tratava de uma polícia de fronteira independente. Perguntei também se ele era amigo do soldado que pareceu tê-lo saudado, e ele apenas respondeu que sim, novamente sem prestar mais detalhes.

…………Notei que havia certa resistência nele com relação ao assunto e decidi apenas prestar atenção no caminho. Mais tarde busquei entender o que de fato se tratava a Gendarmeria e qual a sua origem.

…………Na Argentina, com o intuito de consolidar o limite nacional e dar proteção a todos aqueles que se dirigiam às regiões mais longínquas e extremas do país, foi criado em 1938 a Gendarmeria Nacional que posteriormente veio a se tornar uma espécie de Polícia de Fronteira. Outra particularidade é que seus membros estão sujeitos a um regime extremamente disciplinado. Contam com forte estrutura e doutrina militar que lhes permite cumprir suas funções em tempos de paz, e em tempos de guerra devem obrigatoriamente integrar-se às demais forças terrestres militares. Tanto que em 1982 os chamados Gendarmeiros participaram de forma ativa na Guerra das Malvinas.

…………Com essas informações busquei na história se havia alguma ligação ou informação antiga que permitisse esclarecer um pouco mais a origem de algum tipo de polícia ou pelotão específico que possuísse, como uma de suas funções principais, o cuidado com as pessoas que se deslocavam ou migravam ao longo de um caminho ou território. Fiquei surpreso ao descobrir que o nome Gendarmeria tem como origem o termo francês “Gendarmerie”, que deriva do termo “Gendarme”, e que por sua vez tem origem no francês antigo “Gens d’Armes” ou “Homens de Armas”. Historicamente o termo “Gens d’Armes” referia-se a um grupamento de cavaleiros de origem nobre, dotado de armadura pesada e que era determinado a proteger peregrinos que se deslocavam pela Europa durante a Idade Média. Dessa forma, a criação da Gendarmaria Francesa no século 18 serviu de inspiração e modelo para formação de instituições semelhantes em outros países, como no caso da Guarda Real de Portugal, dos Países Baixos, dos Carbinieri do Reino da Sardenha e da Zhandarmov, no Império Russo, assim como a Guarda Real da Espanha e a Guarda Imperial Austro-Húngaro no final do século 18.

…………Assim que li sobre isso foi inevitável de minha parte não vincular essas atribuições aos Cavaleiros Templários que também cumpriram papel similar até o ano de 1307, quando numa sexta-feira do dia 13 de outubro, a ordem foi declarada ilegal pelo rei Filipe IV da França e seus membros foram acusados de heresia e presos simultaneamente em todo o país, sendo torturados e executados em grandes fogueiras em praças públicas. Esse evento ficou também conhecido como o Dia das Bruxas e ajudou a dar origem à superstição que existe em torno da sexta-feira 13.

…………Após essa estranha coincidência e tantas similaridades com relação a algumas das atribuições dos Templários, eu me questionei diversas vezes se os “Gendarmeiros” podiam ser alguma espécie de guardiões de um caminho desconhecido pela maioria, exceto por algumas pessoas predestinadas a conhecê-lo e a guardá-lo secretamente. Perguntei-me também se o avô de Juan não teria sido uma dessas pessoas que fez parte de um grupo secreto que não só conheceu um caminho, mas também tudo aquilo que ele guardava sobre a vida e os mistérios que o cercava.

…………Embora eu não possuísse nenhuma prova ou afirmação verbal por parte de Halimink, tive a nítida sensação de que a resposta era afirmativa e que eu estava prestes a percorrer um caminho sagrado e desconhecido pela maioria das pessoas comuns. Essa sensação revelou-se ainda mais clara quando o questionei sobre sua ocupação principal, além de guia. Ele não quis entrar em muitos detalhes, mas disse pertencer a uma ordem secreta que guardava sigilosamente um lugar chamado “Hain” e seus segredos. Sua função na ordem era ser um dos guardiões do Primeiro Caminho. Sem dar mais detalhes, me pediu delicadamente para prestar atenção na trilha que estávamos seguindo e que tudo seria revelado no devido momento.

…………O posto de Gendarmeria ficava a aproximadamente uns cinco quilômetros de onde partimos, próximo da entrada da estrada principal que dá acesso ao aeroporto de El Calafate, na Rodovia 11. Após a nossa breve estada com os soldados verificando meus documentos, seguimos pela Rodovia 11 mais uns cinco quilômetros na direção leste até alcançarmos a Rota 40, a qual deveríamos seguir até onde Halimink determinasse. Lembro perfeitamente que sempre dobrávamos a direita quando ocorria alguma intersecção na estrada, rumo ao extremo sul do continente sul-americano, mas especificamente em direção ao “Fim do Mundo”.

…………Embora ainda fosse frio no mês de novembro naquela parte do planeta, o Sol estava forte e me queixei de sede. Halimink retrucou dizendo que ao longo de todo o caminho água não seria problema e apontou para as montanhas ainda um tanto cobertas pela neve. Logicamente, onde há neve há água, mas não consegui avistar nenhum córrego ao longo da rodovia, tampouco algum amontoado de neve pelo chão onde eu pudesse coletá-la, a fim de derretê-la e transformá-la em água.

…………Ao longo da Rota 40 a vegetação é um tanto escassa, embora seja possível a partir de novembro ver a natureza ganhando vida e as várias tonalidades de verde se formarem, desde a mais clara até a mais escura, as quais se mesclam com as grandes partes amarronzadas de solo e as montanhas de pedra que se perdem de vista no horizonte.

…………Dificilmente víamos alguma flor colorida, mas sempre que cruzávamos com alguma Halimink insistia em parar e, abrindo os braços, fazia um gesto no mesmo instante em que dizia uma palavra estranha, o que parecia ser uma espécie de saudação. Do mesmo modo ele se comportava quando cruzávamos com algum animal, geralmente coelhos ou zorros – pequenas raposas fueguinas. Diante da aparente calma que Halimink mantinha quando se aproximava deles, parecia haver uma interação e ao mesmo tempo tolerância mútua com relação à presença de ambos no mesmo espaço.

………….Um pouco mais adiante me queixei novamente de sede e dessa vez ouvi Halimink dizer que já estávamos perto do início do caminho, onde deveríamos descansar.

…………– Perto do início caminho? Pensei que já estávamos no caminho.

…………Ele apenas sorriu e disse que eu fazia perguntas demais.

…………– Estou com muita sede e isso está me desconcentrando.

…………Com um sorriso, ele respondeu:

…………– As pessoas facilmente deixam de ver o que é belo quando surge algum problema ao longo da vida. Não se preocupe, a entrada do caminho já está próxima e, assim que deixarmos a estrada, acamparemos no lugar onde iremos passar a noite. Lá existe água o bastante.

…………Eu me senti um tanto envergonhado com a resposta que obtive e decidi não fazer mais perguntas, me entregando inteiramente ao que estava proposto e confiando em Halimink. Primeiramente porque não havia mais nada o que fazer, eu já estava no caminho, sem comida, sem água e na companhia de um estranho, embora tivesse tido ótimas referências dele. Mas a essa altura, do que me adiantaria retroceder ou desistir? Lembrei-me de Juan e de quando recebi seu e-mail informando da sua desistência, quando ele disse se aquilo não seria uma espécie de prova para tudo que haveria de vir. Dei-me conta de que eu já havia vencido a etapa de não desistir e se eu estava ali naquele momento é porque deveria somente seguir adiante.

…………Caminhamos ainda mais uns cinco quilômetros quando finalmente Halimink parou e disse que havíamos chegado ao início do caminho. Para minha alegria isso soou como se finalmente eu tivesse muita água, comida, banho quente e uma deliciosa cama cheirosa e macia à minha disposição. Porém, estava completamente enganado. Ele apontou um pequeno pontilhão de pedras e disse:

…………– Aqui iniciaremos a trilha amanhã bem cedo. Por hoje nos basta!

…………Saímos da Rota 40 e entramos numa trilha mal traçada, porém visível para quem estava acostumado com ela e a andar em meio a um infinito labirinto de arbustos rasteiros, pedras e montanhas. Logo ao lado do pontilhão havia um arbusto distinto e bem cerrado. Halimink o circulou e sumiu por detrás dele. Enquanto eu via o arbusto balançar ouvia Halimink entoar um cântico numa língua completamente diferente de tudo que eu já havia ouvido. Após alguns minutos ele ressurgiu com uma vestimenta completamente distinta da que ele estava usando. Sua veste parecia um vestido indígena masculino, de um tom acinzentado e já bem gasto pelo tempo. No lugar do sapato, ele agora usava sandálias e, em sua cintura, um largo cinto de couro com alguns utensílios atados a ele, tais como faca, linha, uma pedra lixa e outros apetrechos. Em seu braço, apoiado sobre seu ombro direito um enorme arco, que ia desde quase a sua cabeça até os seus joelhos, e nas costas um cesto contendo flechas e alguns outros utensílios. Em seu ombro esquerdo havia um cantil pendurado com uma corda e que deduzi conter água. Perguntei se eu podia beber um pouco, e ele apenas respondeu:

…………– Venha, a água está bem próxima daqui, no lugar onde iremos passar esta noite.

…………Perguntei o que havia acontecido com suas roupas e ele respondeu de forma muito simples e direta que sua roupa não teria nenhuma utilidade no caminho, assim como os aparatos, dinheiro ou os apetrechos que costumávamos utilizar na cidade.

…………Continuamos a caminhar por mais uns 300 metros, quando alguns arbustos começaram a se tornar mais ralos e, por detrás daquela vegetação peculiar, surgiu um belíssimo lago, pequeno, mas de uma beleza contundente, ainda mais para quem estava sedento.

…………– Passaremos a noite aqui à beira do lago – disse ele. – A água é pura, proveniente do derretimento das geleiras existentes no alto dessas montanhas que circundamos. Beba à vontade e prepare sua tenda enquanto irei providenciar nosso alimento. Se me demorar um pouco, não se preocupe. Às vezes é preciso escolher bem o que caçamos, por respeito ao animal.

…………Num gesto simples curvou-se diante de mim e deu-me as costas, tirando do cesto uma das flechas. Em seguida, pôs-se a testar a rigidez da corda do seu arco.

…………– Nem demais, nem de menos – exclamou baixinho, sumindo por detrás dos arbustos na direção direita do lago.

…………Pensei comigo: como pode existir um lugar tão belo escondido aos olhos das pessoas? Em seguida fui até o lago e me abaixei em sua margem. Bebi quanto pude, até saciar completamente a minha sede, e depois retornei.

…………A beleza verdadeira é muito escassa e é bem provável que seja por isso que quase sempre está escondida, esperando por ser descoberta apenas por quem tem um coração digno de apreciá-la, dando-lhe o devido valor. Tudo que existe na vida e está diante de nós com certa facilidade tende a ser pouco valorizado. Muitas vezes passamos por algo belo e verdadeiro e o deixamos partir sem que tenhamos apreciado ou aprendido algo com ele. Penso que, enquanto estivermos demasiadamente preocupados ou focados no próprio “Eu”, deixaremos passar diante de nós muitas coisas maravilhosas. Talvez seja por isso que Halimink insistiu comigo para eu prestar mais atenção no caminho, e sempre que encontra uma flor ou algum outro pequeno ser ele o saúda com um gesto de admiração e gratidão por tê-lo encontrado.

…………Senti meu corpo e meus pés doendo e resolvi abrir meus sapatos. Nesse instante uma brisa suave e gelada tocou meu rosto, e em seguida ouvi todos os arbustos ao meu redor estalarem. O frio me fez estremecer e o cansaço me abateu. Sentei e olhei ao meu redor todo aquele esplendor de beleza e o encanto contido naquele lugar. Fechei meus olhos, respirei fundo e agradeci a Deus por estar ali, em meio ao tudo e ao nada.

…………Já passava das 19 horas e o Sol ainda continuava alto no céu. Nessa época do ano em que temos a aproximação do verão no hemisfério sul, os dias são longos, podendo fazer apenas algumas poucas horas de penumbra durante a noite.

…………Ouço alguns passos e vejo Halimink se aproximando sorridente. Em uma das suas mãos um coelho.

…………– Pronto! – disse ele. Nosso alimento foi providenciado. Enquanto eu preparo o fogo termine com suas coisas.

…………– Não era bem o que eu esperava – respondi. – Lembro-me de ter pedido para pararmos em algum lugar próximo da cidade onde eu pudesse comprar algumas coisas para comer ao longo do dia. Nunca comi dessa forma, aliás, não me sinto bem vendo o animal morto diante dos meus olhos, tendo que abri-lo e limpá-lo. Só vou comer mesmo porque estou faminto, caso contrário dormiria com fome e amanhã tentaria encontrar algo.

…………Halimink, com os olhos sorridentes e cheios de compreensão, falou:

…………– Quando estamos no caminho, fazemos parte dele, estamos entregues a ele. Tudo o que temos de fazer é agradecê-lo por nos deixar segui-lo, esperando que ele nos dê o sustento de cada dia. Amanhã não iremos encontrar nada além do que “ele” irá nos oferecer. E isso se repetirá durante todos os dias que virão, quer queiramos ou não.

…………Novamente senti vergonha por eu parecer um marmanjo mimado e esquecer o verdadeiro propósito da viagem. Ao invés de reclamar deveria sentir-me grato pelo trabalho que Halimink teve em providenciar o alimento. Sem que eu percebesse, ele me deu as costas e saiu em busca de gravetos para atear fogo, enquanto eu finalizava com as minhas coisas. Durante a montagem da minha tenda olhei novamente o lago e a paisagem deslumbrante ao meu redor, apesar do frio intenso que começava a fazer por causa do pôr do sol que se aproximava. Novamente senti sede e caminhei até a borda do lago. Eu me abaixei para beber a água com as mãos e em seguida lavei meu rosto. Por um instante, após a água ter deixado de tremular, olhei nitidamente meu rosto e me estranhei.

…………Foi curiosa a sensação que tive e acredito que ela deva ser pertinente a todos que passam um tempo na estrada sem ter a necessidade de se olhar no espelho. Passei a ter a sensação nítida de que após algum tempo num caminho qualquer, por menor ou mais simples que seja, passamos a incorporá-lo a cada passo que damos em busca do nosso destino, e aos poucos vamos trazendo para fora o que realmente somos e o que já está esquecido há muito tempo dentro de nós. Por isso, ao olhar o meu reflexo na água, estranhei-me, como se eu fosse outra pessoa. Acredito que Halimink de fato tenha razão. A partir do momento que nos lançamos no caminho passamos a fazer parte dele, por dentro e por fora, e tudo que está ao nosso redor passa a vibrar também dentro de nós. Talvez tenha sido esse o meu sentimento de estranheza, ou seja, como se eu devesse ver no reflexo da água aquilo que eu estava vendo ao meu redor: beleza, plenitude, grandeza, e não apenas o meu rosto. Em resumo: deveria enxergar em mim mesmo o próprio caminho.

…………Contudo, o fato de ver meu rosto fez-me recordar por alguns instantes da minha vida real, embora meu coração se sentisse leve e disposto, apesar de todo cansaço.

…………– Vejo que ainda não terminastes a tua tenda – disse Halimink ao se aproximar com as mãos ocupadas com um punhado de gravetos finos e compridos sobrepostos em um dos ombros.

…………– Enquanto pegava água estava pensando na vida que eu deixei para trás há apenas dois dias, e também fiquei admirando a bela natureza desse lugar.

………….Halimink sorriu e disse:

…………– Que ótimo! Exceto pelo fato de estares pensando no que ficou para trás, vejo que começastes a prestar atenção no caminho, e isso é muito importante. Certamente que a cada dia que se seguir irás prestar mais atenção no que está a sua volta, nos sinais e ensinamentos, e cada vez menos em ti mesmo e naquilo que ficou para trás. Todo caminho é uma via de mão única no qual devemos tão somente seguir em frente, sem olharmos para trás. Em breve enxergarás o caminho dentro de ti mesmo e se transformarás no próprio caminho!

…………Terminei de montar minha tenda, ao passo que Halimink fez o fogo. Enquanto nosso jantar era assado, ele procurou em meio aos arbustos uma raiz nativa que misturada à água dava um leve sabor de hortelã, que me fez recordar capim cidreira.

…………Mesmo dando a impressão de que apenas um coelho seria pouco, comemos até ficarmos satisfeitos, e a raiz misturada à água fez com que a refeição se tornasse completa. Em seguida tirei meus sapatos e coloquei meus pés no chão, uma sensação indescritível após quilômetros de caminhada, embora o chão estivesse imensamente gelado.

…………Até então não havia me dado conta de que Halimink parecia não ter trazido nenhum equipamento para passar a noite, tampouco um pano ou tecido grosso que pudesse abrigá-lo. A essa altura o Sol começava a se pôr no horizonte, eram aproximadamente 22 horas. Foi quando eu o vi caminhar em direção a um pequeno amontoado de pedras e a removê-las uma a uma, retirando de debaixo delas um rolo de couro com aproximadamente uns 40 centímetro de diâmetro. Ao abri-lo, viam-se claramente varas de madeira amarradas a ele a uma medida aproximadamente de um metro entre uma vara e outra. Em um dos lados, as varas eram pontiagudas, o que permitia sua fixação no solo. Halimink se pôs a fazer um círculo com o couro, usando as varas como suporte e sustentação. Ao questioná-lo sobre o material, comentou que se tratava de couro de guanaco, animal típico da Terra do Fogo e das regiões andinas. Explicou que fora acostumado a montar acampamentos dessa forma e a dormir utilizando-se tão somente de materiais rudimentares já usados há centenas de anos pelos povos que habitavam a região das estepes, e deveria ser assim, completou ele, pois somente dessa maneira obteria o respeito dos seres e dos espíritos que habitavam o solo onde pisávamos.

…………Sua tenda rudimentar foi posta ao lado da minha pequena barraca, de modo que pudéssemos nos dirigir a palavra sem grande esforço. A noite começou a cair e o sono tomou conta de mim. Saudei Halimink e o agradeci por tudo até o momento. Antes que eu me deitasse, porém, ele pegou um galho de madeira e fez um círculo ao redor de nossas tendas mantendo-nos do lado de dentro do círculo, que media em torno de uns dez metros de diâmetro. Ao questioná-lo para que servia, ele de forma simples respondeu:

…………– Para nossa proteção.

…………Deu-me vontade de rir e, ao mesmo tempo certo receio, pois de fato estávamos distantes de qualquer lugar habitado e totalmente expostos ao perigo, sem uma arma sequer para nossa proteção. De qualquer forma, não tinha como voltar atrás, tampouco desistir.

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CAPÍTULO III

JELJ: O Antigo Tratado de Paz dos Seres da Terra do Fogo

…………a-posto completar o círculo, Halimink fez dois pequenos riscos que davam a impressão de se tratar de uma porta de entrada. Junto a ela escreveu em tamanho grande uma palavra: JELJ. Em seguida ajoelhou-se com apenas um dos joelhos tocando o solo, abaixou a cabeça e com uma das mãos segurando seu cajado, recitou uma breve oração, ou invocação. De acordo com sua explicação, se tratava de uma invocação milenar do antigo Tratado de Paz dos Habitantes da Terra do Fogo. E acrescentou:

…………– Dentro deste círculo estamos protegidos. O que quer que aconteça durante a noite, não saia de dentro dele.

…………– Estás me deixando aflito. Do que de fato estamos falando?

…………– Não há com que se preocupar. Até hoje nenhum ser ou espírito que habita a Terra do Fogo ousou quebrar o JELJ. Isso seria o mesmo que colocar em risco o equilíbrio da vida e a harmonia que existe em tudo que há ao nosso redor. Porém, de algumas décadas para cá, muitos andarilhos e aventureiros desrespeitosos passaram a percorrer essas terras, o que deixou grande parte dos seres e dos espíritos muito descontente. Enquanto mantivermos o respeito e invocarmos o JELJ, não correremos risco algum, exceto alguns incômodos que podemos sofrer por parte dos pequeninos.

…………– Quem são os pequeninos?

…………– Os pequeninos foram, e ainda são, um povo de pequena estatura, os quais se parecem um tanto com anões ou gnomos. Os mais altos não passam da nossa cintura. Eles habitam há milênios a extensão de terra que vai desde El Calafate até as proximidades da cidade de Puerto Natales. Antigamente eram divididos em dois grandes clãs, os mehns e os yoshis. Hoje existe apenas um, todos descendentes do clã dos mehns. Os mehns sempre foram dotados de espírito de bondade e proteção, já os yoshis possuíam traços de perversidade, embora vivessem em certa harmonia uns com os outros. Atualmente os mehns não andam contentes devido à conduta do homem branco com a natureza, especialmente o desrespeito com suas terras, tornando-se rebeldes e até mesmo agressivos. O velho eremita certa vez comentou que após sondar a alma de alguns mehns percebeu que seus espíritos haviam se transformado em yoshis, e aos poucos um pequeno clã dotado de sentimentos ruins e não condizentes com a bondade dos demais havia se formado, o que é muito ruim para nós.

…………– Quem é o velho eremita? E por que não encontramos nenhum anão ou gnomo ao longo do caminho que já percorremos?

…………– O velho eremita… Não deveria tê-lo mencionado ainda. Ele é um dos guardiões do caminho e no momento certo irá conhecê-lo.

…………– Pensei que nós dois seguiríamos juntos durante todo o caminho e quem quer que fôssemos encontrar iríamos fazê-lo juntos. Halimink sorriu e disse:

…………– Um grande caminho é composto de muitas partes, e cada parte traz em si a própria infinitude. Não se preocupe quanto a isso, pois todos estaremos juntos até o fim. Quanto aos pequeninos, não encontramos nenhum e dificilmente os veremos, porque eles não se deixam ser vistos. Consideram a maioria dos homens um perigo para a natureza e para harmonia da vida em suas terras. Geralmente passam muito tempo sondando o coração de uma pessoa antes de se deixarem ser vistos por ela. Se algum dia vires um, considere-se um ser privilegiado. Desconheço homem branco que tenha visto um.

…………– Você já viu algum deles?

…………– Sim, por duas vezes. Uma delas quando estava numa situação de perigo e fui ajudado por um pequeno grupo deles, o que me tornou eternamente grato. Em outra situação, percebi meu filho brincando e conversando com um ser invisível, porém somente meu filho podia vê-lo. Até que pedi a ele que desenhasse seu pequeno amigo na areia, e antes mesmo de o desenho ficar pronto ele gritou: “Pai, ele está indo embora, veja!”. Ao olhar na direção em que meu filho apontou, pude ver o pequenino já distante em meio aos arbustos, acenando em despedida. Foi uma sensação incrível, a expressão de bondade e pureza existentes na face e nos olhos daquela criatura.

…………– Por fim, antes de deitarmos, devo lhe dizer que nem sempre são tão amigáveis. Ultimamente andam muito mal-humorados em razão do excesso de transeuntes passando aos arredores daqui. Amanhã conversaremos mais sobre eles. Por hoje apenas te peço que não saias de dentro do círculo.

…………– Combinado, mas antes gostaria de lhe perguntar uma coisa.

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CAPÍTULO IV

Os Povos Ancestrais da Terra do Fogo

 

(Disponível somente até o capítulo III)