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Entrevista no Jornal Página 3

Entrevista no Jornal Página 3

Entrevista sobre o livro 21 Dias Nos Confins do Mundo concedida ao Jornal Página 3 –

Edição 1267 do dia 31 de Outubro de 2015, páginas 14 e 15.

Entrevista no Jornal Página 3 com o escritor Henry Jenné autor do livro 21 Dias Nos Confins do Mundo editora Novo Século   Entrevista no Jornal Página 3 com o escritor Henry Jenné autor do livro 21 Dias Nos Confins do Mundo editora Novo Século 2

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ENTREVISTA

Jornal Página 3: O livro 21 dias nos confins do mundo resultou de uma mudança radical na sua formação profissional: de administrador a escritor. Como isso aconteceu?

Henry: Paralelo a minha formação como administrador, eu sempre desenvolvi atividades artísticas como músico e desenhista. Também me interessei desde cedo por teatro e televisão. O gosto pela literatura começou cedo, por volta dos 13 anos de idade, primeiro com pequenos textos e também letras de música. Mais tarde, já como administrador, publiquei uma grande quantidade de artigos com temas voltados à administração, quase sempre com temas que envolviam história e as relações humanas ao longo do tempo. Também em 2006 escrevi meu primeiro livro, registrado, mas não publicado. Tive o privilégio de ter trabalhado em grandes empresas e de ter aprendido muito com a administração, mas nos últimos 2 anos o desejo de voltar a escrever e abraçar a literatura falou mais alto. Foi um tanto difícil de tomar a decisão de abdicar da carreira como administrador, até porque fui muito feliz e aprendi muito com ela. Mas acredito que a minha felicidade e satisfação profissional será obtida com maior plenitude na literatura e na arte.

Jornal Página 3: Como administrador ingressou na área de comunicações, estudou teatro, escreveu artigos, sempre relacionados à sua área de formação. Foi o primeiro sinal de mudança na carreira?

Henry: Não saberia exatamente lhe dizer se foi o primeiro sinal de mudança porque antes mesmo de optar por ingressar na administração eu já desenhava, era músico, escrevia e fazia teatro. Acho que a administração entrou e se estabeleceu na minha vida por todos esses anos como uma forma de amadurecimento pessoal e profissional, até o momento em que eu senti que era a hora de retomar a minha verdadeira essência.

Jornal Página 3: Por que 21 dias?

Henry: Quando fiz o roteiro da viagem que me serviria de palco para história que trago no livro, levei em consideração que eu teria apenas 21 dias para fazê-lo (apenas trajeto de ida), haja vista que eu tive apenas 20 dias de férias do trabalho.

Jornal Página 3: Onde ficam os ‘confins do mundo’?

Henry: Essa é uma excelente pergunta! A cidade de Ushuaia na Argentina leva o título de a cidade do “Fim do Mundo”. No entanto, existem ainda mais 2 pontos habitados no planeta antes da Antártida, ou seja: a “Ilustre Municipalidade de Puerto Williams e o pequeno povoado chamado Puerto Toro. Ambos ficam localizados no território chileno, na Ilha Navarino, onde existe também uma pequena vila chamada Villa Ukika, local onde reside o último remanescente do Povo Yámana – descendentes diretos dos ancestrais da Terra do Fogo. Existe uma certa rivalidade entre o Chile e a Argentina em declarar suas cidades como “Fim do Mundo”. A Argentina não considera Puerto Williams como cidade por haver nela cerca de apenas 1800 habitantes e uma boa parte deles serem militares. Já o governo chileno, declara que essa pequena cidade não somente é uma municipalidade como também recebeu o título de ilustre municipalidade, tendo em vista a importância histórica e cultural do lugar. Foi nessa ilha que Charles Darwin desembarcou por volta de 1832 e conviveu por cerca de 3 anos com os ancestrais da Terra do Fogo, formulando boa parte dos seus estudos que vieram a embasar a sua Teoria da Evolução das Espécies. Por fim, houve um entendimento entre ambos de que Ushuaia é o “Fim do Mundo” e Puerto Williams e Puerto Toro estão “Além do Fim do Mundo”, como os próprios argentinos dizem carinhosamente.

Jornal Página 3: Como veio a motivação para escrever o livro, você viajou com esse propósito ou isso aconteceu durante a viagem com tudo que estava vivenciando?

Henry: Sempre foi meu desejo realizar algum tipo de peregrinação, mas queria um lugar novo, um caminho diferente a seguir e que eu pudesse leva-lo também as pessoas. Quanto mais estudei sobre a Terra do Fogo e o sul da Patagônia, mais me identifiquei com o lugar, e com isso, a ideia de iniciar esse roteiro que é rico em contexto histórico e cultural. Temos uma riqueza cultural e histórica sem tamanho no extremo sul da américa, de um dos povos mais lindos e isolados que já existiu em nosso planeta.

Jornal Página 3: Como foi a escolha do roteiro de viagem?

Henry: Me identifiquei demais com a história dos povos que habitaram o extremo sul da américa e dos exploradores que estiveram por lá. Muito antes da Espanha (através da Argentina e do Chile), Inglaterra e França já haviam mapeado todo o extremo sul da Patagônia e terra do Fogo. Demoramos muito para nos darmos conta da existência desses lugares e ainda hoje pode-se dizer que há regiões muito pouco exploradas. A Terra do Fogo e a Patagônia possui uma das menores densidades demográficas do mundo, e os povos que habitaram seus territórios possuíam uma sabedoria milenar única. Deve-se também considerar que a Terra do Fogo e a Patagônia são territórios distintos, tanto em localização como no clima. A Patagônia possui clima e territórios muito secos, onde existem inclusive algumas das maiores geleiras do mundo. Já a Terra do Fogo é ao sul da Patagônia, o último pedaço de terra antes da Antártida. Possui clima mais úmido, mas nem por isso é menos frio do que a Patagônia. Vale a pena dizer também que a Terra do Fogo é assim chamada em razão das grandes fogueiras que os nativos faziam para se protegerem do frio intenso, as quais levantavam enormes colunas de fumaça que podiam ser vistas a dezenas de quilômetros pelos primeiros exploradores que por ali estiveram e que deram a lugar o nome de Tierra de Fuego.

Jornal Página 3: Quais foram os lugares que mais impressionaram? Por quê?

Henry: Todos os lugares pelos quais cruzei me impressionaram, sem exceção. Contudo, a Ilha Navarino é um lugar onde pretendo retornar e viver por um tempo. Ela é cercada de lugares milenares, cheios de histórias e mistérios. Foi o ponto final da minha viagem e um dos mais impressionantes. Foi nela que Darwin viveu por cerca de 3 anos por volta de 1831.

Jornal Página 3: Momentos marcantes da viagem?

Henry: O encontro com a Sra. Cristina Calderón e com o explorador Alejo Contreras.  Tive o privilégio de ter sido recebido por ela, em sua casa, e ter compartilhado da sua sabedoria. Ela é a última descendente de sangue puro do Povo Yámana, o último remanescente dos povos ancestrais da Terra do Fogo. Dona Cristina foi declarada Patrimônio Vivo da Humanidade pela Unesco em 2003, talvez a única pessoa no mundo a receber esse título. Sua importância cultural e histórica é de um valor inestimável.  Alejo Contreras é o único homem da atualidade a receber o título de explorador. Mora cerca de 6 meses do ano na Antártida e já foi responsável por inúmeras expedições ao Polo Sul. Dentre elas a que levou o astronauta Neil Armstrong (o primeiro homem a pisar na lua) e outras celebridades como Bill Gates. Ele é responsável pela medição regular da neve e do território Antártico, e é um dos que defendem a ideia de que o aquecimento global requer maior tempo para estudo e análise, haja vista que suas medições afirmam que o continente antártico cresceu nas últimas décadas.

Jornal Página 3: Como você se preparou para essa experiência ou já conhecia algum desses lugares?

Henry: Estudei muito sobre os lugares por onde eu pretendia passar. Li muitos livros que traziam a trajetória dos exploradores que passaram pela Terra do Fogo e Patagônia, a maioria deles de origem inglesa. Infelizmente são livros que ainda não foram traduzidos para o português. Dentre eles, a narrativa do próprio Darwin sobre sua passagem pelo extremo sul da américa e também a história da família Bridges, os primeiros europeus a se estabelecerem na Terra do Fogo. Vale a pena dizer que a família Bridges fundou a primeira estância existente na Terra do Fogo no ano de 1866, chamada Estância Harberton, e que até hoje é administrada pela família. Falo sobre ela em meu livro.

Jornal Página 3: Sobre as pessoas que encontrou, todas ao acaso? O que resultou desses encontros?

Henry: Algumas delas ao acaso, outras eu já possuía intenção de conhece-las como no caso de Dona Cristina Calderón. No entanto, sabia da dificuldade que seria de obter o contato com ela, pois os moradores da Ilha Navarino e de Villa Ukika a protegem dos holofotes.  Por fim não somente obtive o contato, como conheci parte de sua família e seus netos me levaram para conhecer boa parte da Ilha, das terras habitadas por seus ancestrais e também o cemitério onde se encontram os restos mortais dos ancestrais fueguinos. Me senti honrado com o carinho recebido por eles e do encontro resultou uma linda amizade, totalmente despretensiosa, e que carregamos até hoje. O mesmo aconteceu com Alejo.

Jornal Página 3: Quais foram as dificuldades encontradas pelo caminho?

Henry: A dificuldade maior é o frio intenso da região fueguina com temperaturas extremamente frias, até mesmo durante o verão, com médias entre 0 e 5 graus, podendo nevar sem que haja previsão. De todo modo, a viagem foi tão maravilhosa que até mesmo as coisas que deram erradas foram as que mais deram certo. Atribuo isso a Deus e aos espíritos de todos os seres que um dia já habitaram a Terra do Fogo. Senti a presença constante de uma força superior mágica, me guiando e me iluminando em cada passo que eu dava.

Jornal Página 3: Quanto tempo levou para editar a viagem e transformá-la em livro?

Henry: A história como um todo levou entre 2 e 3 meses para ser escrita, levando em consideração que eu já tinha rascunhado tudo na memória e em pequenas cadernetas de anotação. No entanto, após enviar a editora, todo processo levou mais ou menos em torno de 4 meses para ficar pronto.

Jornal Página 3: Qual a expectativa com relação ao público?

Henry: A aceitação do livro tem superado minhas expectativas. Logo de início fui convidado a fazer o seu lançamento na Bienal Internacional do Rio de Janeiro, que é o principal evento literário que temos em nosso país. O livro esgotou no segundo dia da Bienal, e desde então tenho recebido constantemente informações de que ele tem sido um dos mais procurados em todas as redes de livrarias, chegando inclusive a estar a frente nas vendas em comparação a outros livros que consideram importantes. Lógico que a pesquisa com relação a venda e popularidade é muito dinâmica. Hoje pode estar a frente na Saraiva, na semana seguinte na Amazon e assim por diante. O lançamento em Balneário Camboriú para mim foi o mais emocionante, sem dúvidas, por uma única questão: além de ser a minha cidade, pude abraçar as pessoas que me acompanharam desde a infância. Foi uma emoção sem tamanho sentir o carinho das pessoas, amigos e também familiares. Quanto ao número de pessoas, a equipe da Livrarias Catarinense me passou a informação de que foi o maior evento de lançamento de um livro tido até hoje na livraria, o que me enche de orgulho e estímulo. Agradeço a todos pelo carinho.  

Jornal Página 3: É um roteiro caro, programado ou você viajou estilo ‘mochileiro’, ficando em hostals ou pousadas, sem qualquer programação?

Henry: Não é um roteiro caro. Muitas companhias aéreas possuem voos regulares à El Calafate – região dos lagos argentinos e onde se encontra a maior geleira em extensão horizontal no mundo. Foi ali que iniciei minha jornada em direção ao extremo sul da américa, de mochila, um pouco caminhando, um pouco de ônibus, de carona em jeeps, barcos e no último trajeto a bordo de um pequeno avião pipper pertencente ao aeroclube de Ushuaia. As pessoas que residem no extremo sul são demais solícitas e prestativas. Atribuo isso ao fato de viverem numa climática extrema, onde se viver de forma estabelecida, definitiva, é um desafio constante, principalmente a aqueles que vivem em locais mais isolados. É certo que tiveram que ao longo dos anos contarem primordialmente com a ajuda uns dos outros para sobreviverem, o que os fez se tornarem tão solícitos com as pessoas que passam em seu território. Nas pequenas cidades existem pousadas e também diversos hostels. Acho a experiência do hostel maravilhosa, pois te dá a oportunidade de conhecer pessoas de todos os países. Encontrei nos hostels muitas pessoas provenientes da europa e da américa do norte, dentre eles Carie Frantz, canadense e doutora em geobiologia. Sua vinda ao extremo sul da américa se deu em razão da elaboração de sua tese de doutorado, cujo foco principal era a experiência de conviver durante um período de tempo em um local e um povo geobiológicamente distintos. Uma experiência um tanto similar a vivida por Darwin em 1831. De modo geral, posso assegurar que é uma aventura segura e cheia de encantos e magia. Apenas recomendo aos que desejarem fazer esse roteiro lerem bastante sobre os lugares que pretendem passar e a forma de se deslocarem, pois o extremo sul da américa é um tanto fragmentado em ilhas, mas nem por isso inacessíveis, muito pelo contrário, com um pouco de curiosidade e determinação, se faz amizade fácil com as pessoas locais e se obtém muita informação de como se deslocar por entre os pequenos povoados, seja de ônibus, de carro, de barco ou até mesmo em pequeno aviões.

Jornal Página 3: Qual será o próximo roteiro?

Henry: Será na América do Sul. Ainda é segredo, mas posso dizer que pretendo resgatar a existência de outro caminho milenar e também das pessoas e dos exploradores que o utilizaram há mais de 500 anos atrás. Um caminho místico e releto de encantos, muitíssimo pouco conhecimento pela grande maioria das pessoas. Essa história promete ser tão rica e tão boa quanto “21 Dias Nos Confins do Mundo”, e será no mesmo estilo, mesclando realidade com pitadas de ficção para tornar a leitura ainda mais atrativa e envolvente.

Jornal Página 3: Como o mercado literário recebeu esse novo escritor?

Henry: Muitas pessoas me perguntam sobre como tornar-se escritor profissionalmente. Primeiro é bom deixar claro que escrever um livro e tornar-se escritor são 2 coisas distintas. Distintas porque muitas pessoas tem o desejo ou o sonho de apenas escrever um livro. Outros, no entanto, almejam de fato ingressar no meio literário e consagrar-se como escritor. Pela experiência que tive até então, pude perceber que o mercado literário brasileiro é ainda um tanto restrito, mas existem editoras sérias e que apostam em novos talentos. Eu só tenho a agradecer a editora Novo Século, pelo seu profissionalismo e pelo apoio aos novos Talentos da Literatura Brasileira. Fica aqui registrado meu apreço pela editora e a razão pela qual eu recomendo a Novo Século a todos aqueles que desejam buscar pelo fantástico caminho da literatura.