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21 dias Nos Confins do Mundo:  Os Caminhos Sagrados do Fim do Mundo

21 dias Nos Confins do Mundo: Os Caminhos Sagrados do Fim do Mundo

Quando eu tinha por volta de 8 anos de idade passei a me interessar significativamente pelo extremo sul da América e passava horas e horas olhando e analisando um pequeno e velho mapa que eu havia ganhado do meu avô de presente, cada pequeno pedaço de terra desfragmentado naquela estreita e longa faixa de terra que apontava em direção ao Polo Sul.

Desde criança, sempre fui fascinado por mapas. Adoro vê-los em detalhes e às vezes, quando pequeno, sonhava que estava a bordo de algum barco ou pequeno avião atravessando todos aqueles contornos e desenhos, cujos traçados, a maioria deles irregulares, davam ainda mais vida à minha imaginação.

Henry Jenné Resposta da carta enviada a Antártida livro 21 dias nos confins do mundo

Resposta da carta enviada a Antártida

Alguns anos depois, assim que entrei para Universidade e estando já por volta dos 18 anos de idade, participei de um trabalho (concurso) onde seriam escolhidas algumas cartas a serem enviadas à Antártida, destinadas ao grupo de oficiais brasileiros que passariam o inverno de 1993 na Estação Antártica Comandante Ferraz,  na Ilha Rei George.

Não sabia eu que minha carta seria escolhida dentre tantas outras, e que em 01/08/1993 ela seria respondida. Quando recebi a resposta não foi apenas uma emoção, mas também o reacender de um sonho que eu havia guardado desde a infância dentro de mim: o de conhecer o extremo sul da América.

Não fazia a menor ideia que, passados 20 anos, eu estaria arrumando uma mochila para cruzar toda a Patagônia e chegar até bem próximo à Antártida, mais especificamente nos Confins do Mundo, ou seja, um pouco além da cidade de Ushuaia, na Argentina.

Iniciei minha viagem no dia 02 de Novembro de 2013, a qual durou até o dia 22 de Novembro, pois minhas férias eram tão somente de 20 dias. Como a viagem iniciou num sábado, tive ao todo 21 dias para realizar todo o trajeto (somente de ida) e então tomar um voo direto de retorno ao Brasil no último dia da viagem. Esse pequeno detalhe da quantidade de dias e a localização dos lugares por onde passei me motivou a dar ao livro o título de: “21 Dias nos Confins do Mundo”.

Henry Jenné cidade de El Calafate o início do caminho livro 21 dias nos Confins do Mundo

A cidade de El Calafate, o início do caminho

A aventura iniciou numa manhã de sábado, na Ilha de Florianópolis/SC, onde tomei um voo até a cidade de São Paulo e em seguida à cidade de El Calafate, na Patagônia Argentina. A cidade de El Calafate está inserida na região onde ficam alguns dos principais lagos argentinos, os quais se abastecem constantemente do derretimento regular dos imensos glaciares que existem naquela região. Ali perto fica também a pequena vila de El Chaltén, tida como a capital Argentina do Trecking e onde fica a gloriosa montanha Fitz Roy, uma das mais difíceis e temidas do mundo para se escalar.

Henry Jenné Navegando no extremo Sul da América livro 21 dias nos confins do mundo

Navegando no extremo Sul da América

De lá segui parte por terra, parte por água e um outro tanto pelo ar, e fui até onde eu pude chegar, atravessando áreas completamente desertas do continente e também de ilhas quase inexploradas pelo homem, até  alcançar o último ponto habitado do planeta antes de se chegar na Antártida.

De El Calafate até Cabo de Hornos, o último ponto habitado do planeta, são pouco mais de 650 kms em linha reta, distância essa que ultrapassa a 1.100 km, caso opte-se por fazer todo o trajeto por terra e mar.

No entanto, vale lembrar que o extremo sul da América é praticamente todo fragmentado em pequenos pedaços de terra (ilhas), sendo que existem estradas relativamente boas nas ilhas maiores, onde pode-se seguir relativamente em segurança. Porém, entre uma ilha e outra, é necessário a utilização de Ferrys que fazem o traslado dos veículos e das pessoas entre as mesmas.

Henry Jenné Travessia de um glaciar ao longo do caminho livro 21 dias nos confins do mundo

Travessia de um glaciar ao longo do caminho

Dependendo do caminho que tomarmos, temos de serpentear entre o Chile e a Argentina até atingirmos o ponto mais austral do planeta, ou seja, o pequeno povoado onde vivem 33 pessoas, chamado Puerto Toro. Lá sim se chega tão somente de barco, contornando a Ilha Navarino na desembocadura do Canal Beagle, local onde se unem os oceanos Atlântico e Pacífico.

De El Calafate até a Província de Cabo de Hornos atravessei desertos e cruzei montanhas, lagos, glaciares, estreitos de mar, ilhas e ilhas sem fim, e encontrei pequenos povoados onde “ainda” é possível se conhecer descendentes dos povos ancestrais da Terra do Fogo.

Uma outra coisa que deve-se ter em mente é que não devemos confundir a Terra do Fogo com a Patagônia, embora as duas estejam praticamente lado a lado e seus ecossistemas são muito parecidos. A Patagônia é um imenso deserto que abrange uma boa parte do território argentino e está inserida também no território chileno. A Terra do Fogo pode-se dizer que é o território habitado mais austral do planeta, e se encontra mais ao sul do território patagônico. Suas terras são assim chamadas devido aos exploradores que, ao chegarem por lá, avistaram ainda do mar enormes colunas de fumaça que se formavam desde o chão até o céu. Pouco depois de descerem em terra e explorarem melhor aquela parte tão longínqua do planeta, viram que se tratava de enormes fogueiras feitas pelos povos nativos com o intuito de se manterem aquecidos devido ao frio extremo que é constante naquela região.

Henry Jenné Iniciando a travessia da Cordilheira dos Andes no extremo Sul da América livro 21 dias nos confins do mundo

Iniciando a travessia da Cordilheira dos Andes no extremo Sul da América

Uma outra curiosidade que existe na Patagônia é a Cordilheira dos Andes, que embora perca um pouco sua altitude quando se  aproxima do extremos sul do continente, mesmo assim ela continua forte e vigorosa, com seus picos nevados  praticamente ao longo de todo o ano, dando origem ao termo que alguns utilizam como “neves eternas”, por jamais terem derretido completamente desde a sua formação de origem.  A Cordilheira dos Andes atravessa toda a Patagônia e praticamente forma uma linha natural e divisória entre a Argentina e o Chile. Quando atinge a Terra do Fogo ela cruza a Ilha Grande no sentido Leste/Oeste, perdendo gradualmente atitude até submergir completamente próximo o Ilha dos Estados. Ali a perdemos de vista, porém ela se mantém submersa e ressurge majestosamente no Continente Antártico.

Henry Jenné Travessia da Cordilheira dos Andes na Terra do Fogo livro 21 dias nos confins do mundo

Travessia da Cordilheira dos Andes na Terra do Fogo

Até alguns anos atrás, mais especificamente até a década de 60/70, o único meio de se chegar por terra ao “Fim do Mundo” (como é conhecida a cidade de Ushuaia), era através de uma única e antiga estrada que foi aberta há muitas décadas, cujo traçado teve como base um antigo “passo” ou passagem que foi projetada inicialmente de forma muito rudimentar pelos povos ancestrais que habitavam o extremo sul e que esporadicamente  realizavam expedições ao longo do território fueguino, rumo ao norte.  Esse “passo ou passagem” ficou conhecido como “Paso Garibaldi” e ainda hoje é um marco histórico para a região. O nome Garibaldi não é derivado de Giuseppe Garibaldi, mas a de um descendente de índio que trabalhou para a Província da Terra do Fogo. Conto um pouquinho de sua história no meu livro.  Junto a ele (passo) se entrelaçam as duas estradas que cruzam a Cordilheira do Andes no extremo sul, ou seja, a velha e a nova. Tive a oportunidade de cruzar os Andes pela estrada velha a bordo de um Jeep, uma aventura muito emocionante, especialmente pelo contexto histórico de como a passagem surgiu.

Henry Jenné Abrigo utilizado como refúgio na Ilha Gable - Canal Beagle livro 21 dias nos confins do mundo

Abrigo utilizado como refúgio na Ilha Gable – Canal Beagle – A cabana do Velho Jack

Henry Jenné Interior do abrigo utilizado como refúgio na Ilha Gable livro 21 dias nos confins do mundo

Interior do abrigo utilizado como refúgio na Ilha Gable

O extremo sul é composto por uma infinidade de ilhas, algumas grandes e com alguma estrutura, outras sem quase nenhuma interferência humana. Em algumas delas é possível de se encontrar alguns abrigos feitos e deixados com o propósito de servir a pessoas perdidas, náufragos, exploradores e aventureiros, dentre outros. Em seus interiores geralmente a composição é bem rudimentar, embora possam ser encontradas ferramentas básicas que permite ao aventureiro manter-se vivo e até mesmo (se tiver alguma experiência) sair do local e chegar a algum outro onde possa pedir ajuda. Encontrei em um desses abrigos instrumentos e ferramentas tais como: machado para cortar lenha, um aquecedor de ferro rudimentar, mapas do local, cartas náuticas, garrafas de água, mesa, pia, uma cama de palha e vários objetos deixados por passantes, os quais fizeram questão de deixar uma mensagem aos que, por sua vez, também passariam por ali.

Henry Jenné Trem do "Fim do Mundo" na travessia do Parque Nacional da Terra do Fogo livro 21 dias nos confins do mundo

Trem do “Fim do Mundo” na travessia do Parque Nacional da Terra do Fogo

A Ilha Grande da Terra do Fogo é a principal e maior extensão de terra que existe no extremo sul. Nela existe uma boa quantidade de pequenos povoados e também algumas cidades de pequeno porte, sendo que uma das mais conhecidas é  Ushuaia. Nela existe também o Parque Nacional da Terra do Fogo, o qual é possível fazer uma travessia de trem. O lugar é lindo e tentador para permanecer por um algum tempo. Além do trem, é possível percorrer o parque através de suas trilhas e avistar de perto toda a flora e fauna existente na região fueguina. Embora a Patagônia e a Terra do Fogo sejam lugares tidos como selvagens, devido a inospitalidade da região, inexiste animais peçonhentos, tais como cobras, aranhas e escorpiões, ou seja, é o sonho de todo aventureiro. É possível cruzar com diversos animais ao longo da patagônia, sendo que os mais facilmente encontrados são zorros (pequenas raposas), guanacos, castores, coelhos, pássaros e não raramente pinguins ao longo de todas as encostas e praias.

Henry Jenné e Estância Harberton, inaugurada em 1886 por Thomas Bridges livro 21 dias nos confins do mundo

Estância Harberton, inaugurada em 1886 por Thomas Bridges

Ao se chegar em Ushuaia descobri uma grande curiosidade: a cidade até então conhecida por  quase todos como “Fim do Mundo” estava longe de ser (de fato) o fim do mundo. Além do Ushuaia há ainda 2 outros pontos habitados antes de se chegar a Antártida, ou seja: Puerto Williams e Puerto Toro. Ambos do outro lado do Canal Beagle e dentro do território chileno. Ainda em Ushuaia, antes de atravessar para o lado chileno, fui até a Estância Harberton, um lugar mágico pela beleza e também por sua história. A propriedade fundada em 1886 pelo missionário Thomas Bridges ainda está em posse da família, e ainda hoje é administrada por seus sucessores. Dali segui adiante, rumo ao lugar que de fato seria o “Fim do Mundo”.

Henry Jenné Ilha Navarino (Chile) - próximo ao Porto Navarino livro 21 dias nos confins do mundo

Ilha Navarino (Chile) – próximo ao Porto Navarino

Mais ou menos na mesma altura de Harberton, porém do outro lado do canal, encontra-se a pequena e ilustre cidade de Puerto Williams, na Ilha Navarino, e também a pequenina Villa Ukika, onde vivem os legítimos ancestrais do Povo Yámana, originários da Terra do Fogo.  Para se chegar em Puerto Williams não foi tão simples como parecia – apenas cruzar o canal, pois além de ter de deixar formalmente o pais argentino, apenas 1 única empresa faz a travessia do canal, que embora não seja tão extenso, as condições climáticas e a ferocidade das águas e dos ventos podem fazer com que a travessia seja cancelada a qualquer momento e sem aviso prévio. Em condições normais, há apenas 2 travessias ao longo da semana, sendo que nas quartas-feiras o barco parte de Ushuaia em direção a Williams e no sábado retorna. Fora esses dias, não há outra forma de ir ou voltar, a não ser de avião, que pertence ou ao aeroclube de Ushuaia, ou a Marinha Chilena.

Henry Jenné Próximo ao topo da primeira montanha que faz parte da Trilha Navarino, a mais austral do planeta livro 21 dias nos confins do mundo

Próximo ao topo da primeira montanha que faz parte da Trilha Navarino, a mais austral do planeta

Puerto Williams é um lugar mágico e onde eu gostaria de viver por um tempo. Embora seja frio ao extremo, a beleza do lugar aliada ao calor humano dos seus habitantes fazem do lugar um pequeno paraíso perdido na terra, onde animais caminham soltos, lado a lado e em harmonia com as pessoas. Não lembro de nenhum outro lugar no mundo ter me tocado tanto quanto Puerto Williams. Foi  ali que Darwin permaneceu por 2 anos antes de partir para Galápagos e onde ele analisou o desenvolvimento dos habitantes locais, o que lhe conferiu material substancial para o desenvolvimento da sua teoria de evolução das espécies. Ainda em Williams tive a oportunidade de subir o Cerro Bandeira, onde aos seus pés se inicia a Trilha Navarino. Com cerca de 50 kms de extensão, é a trilha  mais austral e uma das mais linda e espetaculares do planeta. Dizem que, se tiver sorte ao acampar em algum de seus cumes, é possível se ver a aurora austral. Contam os nativos que, existem trilhas secundárias e escondidas ao longo dela e que levam a lugares místicos, mágicos e sagrados, onde os membros de uma antiga e milenar sociedade secreta que detinha os verdadeiros segredos da vida realizavam seus rituais.

Henry Jenné No topo da montanha Cerro Bandera localizada na Ilha Navarino, Chile, próximo a Puerto Williams livro 21 dias nos confins do mundo

No topo da montanha Cerro Bandera localizada na Ilha Navarino, Chile, próximo a Puerto Williams

Também contam que nela se encontra uma passagem secreta capaz de levar o caminhante até o pequeno povoado de Puerto Toro, onde vivem 33 pessoas, local onde (até então) só é possível de chegar por mar. Do alto do Cerro Bandera é possível (em dias de tempo bom) se avistar a cidade de Ushuaia bem ao fundo – a cerca de quase 70 kms dali. Também é possível se avistar uma boa extensão do canal beagle e suas inúmeras ilhas, assim como o fim do canal que desemboca no oceano atlântico, com a Ilha dos Estados ao fundo.

Henry Jenné em Em Villa Ukika, um dos povoados mais austral do planeta e onde foram relocados os últimos descendentes do povo Yámana livro 21 dias nos confins do mundo

Em Villa Ukika, um dos povoados mais austral do planeta e onde foram relocados os últimos descendentes do povo Yámana

Ainda em Williams, fui até Villa Ukika onde vivem os remanescentes do Povo Yámana (ou Yaghan) como também eram conhecidos. Em Ukika é fácil perceber o quanto foi violenta a introdução do europeu em terras tão longínquas, dizimando não apenas um povo, mas também todo um contexto histórico e cultural da vida humana no extremo sul. Em sua entrada uma placa traduz esse capítulo triste da história. Dos milhares de habitantes de diversas etnias que haviam na Terra do Fogo, restou tão somente algumas poucas dezenas, sendo que dentre estes apenas 1 único de sangue puro, a senhora Cristina Calderón, declarada em 2003 pela Unesco e pelo Governo do Chile como Monumento Histórico Vivo da Humanidade.

Henry Jenné Com a Sra Cristina Calderón a última descendente de sangue puro do povo Yámana, reconhecida como patrimônio vivo do país livro 21 dias nos confins do mundo

Com a Sra Cristina Calderón, a última descendente de sangue puro do povo Yámana, reconhecida pela Unesco e pelo Governo do Chile como patrimônio vivo da humanidade. Em meu livro, foi ela quem inspirou-me a personagem Virgínia.

Extremamente difícil de ser contatada, as pessoas de Villa Ukika a protegem da mídia e da especulação de pessoas que tentam lucrar com sua imagem. Tive não apenas o privilégio, mas também a honra de estar em sua presença e de desfrutar de algumas horas de sua mágica companhia, experimentando um de seus mates com biscoitos caseiros. Embora seja uma pessoa simples e que goste de viver sem requintes, apesar de todo o prestígio que lhe fora conferida, sua figura carrega consigo algo que julgo ser transcendental. Nunca vou esquecer dos momentos que estive com ela e seus netos, os quais amavelmente me convidaram para conhecer as terras que foram habitadas por seus ancestrais e onde se localiza o principal cemitério Yámana de toda Terra do Fogo. Quem conhece da cultura indígena sabe perfeitamente a honra que é ser convidado para conhecer as terras e o cemitério de um povo indígena, os quais tem esses lugares como sagrados, locais que em sua cultura estabelecem uma conexão direta com os espíritos de seu povo.

Henry Jenné Cemitério Yámana localizado na Ilha Navarino, o maior existente da Terra do Fogo e onde se encontram os restos mortais dos ancestrais de seu povo livro 21 dias nos confins do mundo

Cemitério Yámana localizado na Ilha Navarino, o maior existente da Terra do Fogo e onde se encontram os restos mortais dos ancestrais de seu povo

As terras onde viviam os ancestrais do povo Yámana (ou Yaghan) e onde se encontra o cemitério indígena é um dos mais belos da Ilha, a Bahia Mejillones. Não é preciso dizer a magia que o local oferece, não somente pela beleza singular do local, mas também pelo fato de Darwin e um sem número de navegadores antárticos já terem passado por aqui.

Pouco antes de terminar a viagem ainda conheci outros pontos históricos e interessantes aos arredores de Puerto Williams, dentre eles a proa do navio rebocador “Yelcho”, responsável pelo maior e mais dramático resgate marítimo realizado ao longo da história marítima, ou seja, o da Expedição Transantártica comandada por Ernest Henry Schackleton em 1914.

henry jenné Jantar de despedida de Puerto Williams, com o explorador Alejo Contreras e a Dra Carie Frantz 21 dias nos confins do mundo

Jantar de despedida de Puerto Williams, com o explorador Alejo Contreras e a Dra Carie Frantz.

Na noite anterior a minha partida de volta ao Ushuaia, e seguidamente ao Brasil, tive a enorme honra de conhecer e jantar (uma macarronada feita por mim) com um dos maiores aventureiros do nosso século, o explorador Alejo Contreras. Alejo é um dos poucos, senão o único homem da atualidade a receber o título de explorador. Formado em Nevologia, vive boa parte do ano no continente antártico. Ao longo de sua vida já realizou um sem número de expedições de reconhecimento e resgates na Antártida. Dentre suas expedições está a de Neil Armstrong ao Polo Sul. Embora possuidor de grande conhecimento e prestígio, é uma pessoa simples, e sua figura remete aqueles marujos capitães saídos de estórias e filmes. Suas histórias são emocionantes.

Na manhã seguinte, soube que o trajeto de barco entre a Ilha Navarino (Chile) e Ushuaia (Argentina) havia sido cancelado devido as condições climáticas. Tive de contatar algumas pessoas (pois meu voo de volta ao Brasil seria ainda na noite daquele mesmo dia) e muitas delas se propuseram a me ajudar, sem sequer terem me visto na vida, razão pela qual só tenho a agradecer a Deus por tudo ter dado tão certo, e pelas pessoas pelas quais cruzei ao longo do caminho.

Henry Jenné Aeroporto da Guarda-Marinha de Puerto Williams, no retorno a Ushuaia. livro 21 dias nos confins do mundo

Aeroporto da Guarda-Marinha de Puerto Williams, no retorno a Ushuaia.

Finalmente ainda antes do final da manhã consegui um voo que estaria trazendo alguns oficiais chilenos do Ushuaia para base naval de Puerto Williams e que retornaria vazio. Com o dinheiro que me foi devolvido pela empresa náutica que faria a travessia e contando com a ajuda de algumas pessoas, pude retornar quase que de carona fazendo uma das maiores aventuras que eu já fiz em minha vida, ou seja, a de sobrevoar a bordo de um pequeno piper o Canal Beagle em um trajeto de cerca de 80 Kms que separa Puerto Williams na Ilha Navarino e Ushuaia, na Ilha Grande.

Henry Jenné Sobrevoando o Canal Beagle. A esquerda a llha Navarino e a direita a Ilha Grande da Terra do Fogo livro 21 dias nos confins do mundo

Sobrevoando o Canal Beagle. A esquerda a llha Navarino e a direita a Ilha Grande da Terra do Fogo

A bordo daquele pequeno avião diante de toda aquelas forças da natureza me fez sentir como um grão de mostarda em meio a um infinito universo. Entre tantos solavancos e sacolejos devido aos fortes ventos do extremo sul do planeta, percebi o quanto somos nada diante da imensidão da vida que nos cerca.

Por fim cheguei a Ushuaia, com o coração partido por ter que retornar a vida cotidiana após 21 dias de peregrinação e aventura percorrendo os caminhos sagrados da Terra do Fogo.  Depois que cheguei em casa, deixei a mochila sobre o sofá da sala e tomei um banho. Em seguida me deitei em minha cama para descansar e pensar um pouco sobre tudo que eu havia vivido, as pessoas que eu havia conhecido e os caminhos que eu havia percorrido. Percebi, após alguns minutos de meditação, que eu jamais seria o mesmo.

MAPAS:

1 – Patagônia e Terra do Fogo

mapa do extremo sul

2 – Terra do Fogo

mapa extremo sul mais proximo

3 – Terra do Fogo e Península Antártica

mapa extremo sul mais proximo antartida